O que é mito?

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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
13 de março de 2021 - 10 min leitura

Uma rápida pesquisa no Google sobre mito hoje iremos encontrar páginas como essas: 58 mitos clássicos em que continuamos acreditando. Uma rápida olhada no conteúdo e iremos notar que a palavra mito é usada em um sentido bem específico. Mito é aquilo que engana, que ilude, que oculta a verdade. Uma ficção na qual muitas pessoas acreditam, mas que não resiste a uma análise séria, científica. 

Mas essa ideia de mito é recente. Durante a maior parte da história humana, o mito tinha outro significado. “Mito” vem do grego “mythos”, que significa narrativa ou história. Aristóteles chamava de mito, por exemplo, as histórias que eram narradas no teatro grego. Quer dizer que, se um mito é uma narrativa, então ele é a mesma coisa que hoje chamamos de ficção, um precursor dos filmes, novelas e romances? 

Vamos com calma com as comparações. Para entender o significado de mito nas sociedades primitivas nas quais ele é algo vivo, vamos olhar com calma para um exemplo e depois analisá-lo com cuidado.

Exemplo de mito

A história a seguir é um mito grego sobre Aracne e a deusa Atena, contada por Liz Greene em um livro chamado Uma Viagem Através dos Mitos. 

Aracne tinha a sorte de ter sido abençoada com um talento raro para tecer. Era tão hábil, que não apenas as pessoas comuns do povo acorriam para ver seu trabalho, mas também as ninfas dos bosques e rios iam observar, admiradas, a destreza com que ela tecia e as criações maravilhosas que saíam de sua agulha. Na verdade, tanto se falou bem dela que chegou aos ouvidos de Atena, a deusa dessas artes — a quem, muitos diziam, Aracne devia seu talento. Atena ensinara os homens a tecer, e todos os que possuíam essa habilidade deviam seu dom a essa deusa. 

Mas a mais ínfima sugestão disso feriu o orgulho de Aracne, e ela abanou a cabeça, cheia de desdém. — Atena, qual! Não devo minha habilidade a ninguém senão eu mesma, e não há ninguém na Terra ou no céu com quem eu não aceite competir. Se Atena quiser, ela que venha comparar sua destreza com a minha. 

Seus amigos tremeram ao ouvi-la dizer isso; da multidão que tinha se juntado, como sempre, para observá-la, saiu uma anciã. — Toma cuidado com o que dizes, minha cara. A idade e a experiência sempre trazem sabedoria. Ouve o que te digo e reconhece o poder da deusa, pois ela tem graças a oferecer aos mortais que a honram. Nenhum trabalho humano é tão bom que não possa ser aprimorado. 

— Velha tola, quando eu quiser teus conselhos, pedirei!, retrucou Aracne, enraivecida. Se Atena quiser uma competição, ela que venha. 

— Eis-me aqui!, bradou uma voz imperiosa. E da anciã encarquilhada, fez-se a grande Atena, pessoalmente, em toda a sua esplêndida glória. — Que se inicie a competição! 

A princípio, Aracne ficou confusa, mas logo recuperou a compostura e aceitou ousadamente o desafio. Foram montados dois teares, e as rivais começaram a trabalhar. 

Como tema de seu trabalho, Atena escolheu os deuses, alinhados na acrópole de Atenas: Zeus em toda a sua majestade, Poseidon com seu poderoso tridente, ela própria dando vida à oliveira, como a melhor dádiva ofertada ao homem. Em torno dessa cena central eram retratados mortais ingênuos, confusos, gigantes rebeldes transformados em montanhas, e, numa pista para sua pretensiosa rival, meninas tagarelas transformadas em pássaros estridentes. Como moldura, uma barra feita de folhas de oliveira. 

Aracne optou por zombar dos deuses em seu trabalho, escolhendo histórias em que eles tinham sido envergonhados: Zeus cortejando mortais de maneiras indignas, Apoio trabalhando humildemente como pastor na Terra, Dioniso embriagado fazendo travessuras, e tudo isso contornado por uma bela moldura de hera e flores. Mas essas cenas irreverentes foram tecidas com tamanha beleza e com arte tão requintada que os animais e a folhagem pareciam tão reais que quase podiam ser tocados.

O talento de Aracne era inegável, e Atena, ao se erguer para examinar o trabalho da rival, teve que admiti-lo. Mas apontou o dedo para Aracne e disse zangada: — Fia para sempre, mas esteja certa de que teu trabalho, por mais delicado e belo que seja, só despertará horror e repulsa na humanidade e, por mais intrincadas e fascinantes que sejam tuas tapeçarias, elas serão sempre varridas para longe! 

Horrorizada, Aracne percebeu que suas feições humanas, seus membros humanos e seu corpo humano estavam encolhendo e desaparecendo. Em menos de um minuto, ela foi transformada na primeira aranha da Terra, destinada a tecer para sempre, mas sem nenhum reconhecimento1.

Características do mito

De acordo com Mircea Eliade (1907 – 1986), um estudioso das religiões muito conhecido, o mito é um tipo de narrativa muito especial. Ele identifica uma série de características comuns a essas histórias que nos ajudam a reconhecer o que há de mitológico na história que acabamos de ler. Vamos ver cada uma delas.

O mito constitui a história sagrada de Entes Sobrenaturais. A história dos mitos não é qualquer história, conto ou fábula. Ele narra ações praticadas por deuses. No mito que vimos acima, se trata da deusa Atena. Os povos primitivos fazem distinções entre histórias sagradas e profanas. As primeiras falam das origens dos seres humanos, dos astros e dos deuses, ao passo que as últimas abordam temas menos importantes.

As histórias sagradas geralmente são de conhecimento apenas dos iniciados. Só podem ser contadas para pessoas específicas, em momentos específicos. Por exemplo, entre os tibetanos, certos mitos só podem ser contados durante a noite e no inverno. E para fazer isso, há todo um ritual:

Antes de iniciar a recitação, prepara-se uma área, que é pulverizada com farinha de cevada torrada. A audiência senta-se ao redor. O bardo recita a epopeia durante diversos dias. Dizem que, em outros tempos, viam-se nessa ocasião as pegadas dos cascos do cavalo de Gesar sobre a área preparada. A recitação, portanto, provocava a presença real do herói2.

O mito sempre se refere à criação. Os mitos narram como determinados seres, objetos e comportamentos passaram a existir. Através dessas histórias de origens, os mitos narram como surgiu o planeta, os animais, o ser humano. É por causa do que aconteceu num passado primordial que o ser humano é como é hoje. Se isso não tivesse acontecido, ele poderia ter as características de um cobra, por exemplo, trocando de pele periodicamente, ou de uma pedra, existindo indefinidamente. No mito acima, entendemos como surgiu a primeira aranha e porque ela está sempre tecendo belas teias, mesmo que não tenham valor e não recebam reconhecimento de seres humanos.

O mito é um modelo. Os mitos não são apenas histórias interessantes, eles são um modelo e mostram como os seres humanos devem se comportar. Na história de Atena e Aracne, estão subentendidos vários exemplos de comportamentos que devem ou não ser seguidos. Em especial, o mito nos fala sobre os perigos do orgulho. Algumas pessoas são tão boas no que fazem que acham que nada poderá prejudicá-las e serão sempre admiradas. Acabam se tornando orgulhosas demais e insuportáveis. No fim, esse outro lado de suas personalidade acaba ofuscando seu talento. Aracne venceu a competição com Atena pela beleza do seu trabalho. Mas não queria apenas isso. Fez questão de zombar dos deuses e acabou se prejudicando. O mito também nos mostra os limites na relação com os deuses, através de um exemplo do que não fazer. 

O conjunto de mitos de uma sociedade fornece modelo para os mais diferentes tipos de comportamentos. Por exemplo, os Kai da Nova Guiné mantêm inalterada sua forma de vida e trabalho. Quando questionados porque fazem isso, afirmam que “foi assim que fizeram os Nemu (os Ancestrais míticos) e fazemos como eles”. Vários comportamentos diferentes recebem a seguinte justificativa: “Assim fizeram os deuses; assim fazem os homens”3.

Conhecer o mito é poder. A história narrada pelo mito fala das origens e explica porque as coisas são como são hoje, da mesma forma que a história de fatos passados explicam porque nossa sociedade é como hoje. Porém, a história mítica tem aspectos diferentes. A história, tal como entendemos, é algo irreversível: aconteceu no passado e fica lá no passado. A história mítica, por outro lado, é reatualizada periodicamente. O que aconteceu no momento mítico originário pode ser repetido graças aos poderes do rito. Conhecer os mitos, assim, garante um certo poder sobre a realidade. Para uma comunidade caçadora de povos primitivos, por exemplo, saber como os peixes foram criados pelos Entes Sobrenaturais permite não apenas saber como surgiram, mas fazer com que reapareçam quando se tornarem escassos.

Funções do mito

Pensando como o mito foi compreendido em sociedades antigas, podemos ver que ele assume uma série de funções. O mito explica a origem das coisas que existem, e satisfaz essa necessidade humana de encontrar um sentido para as coisas. Mostra como devemos agir em uma variedade de situações, como nos relacionar com seres humanos, que valores e sentimentos cultivar, o que buscar na vida, até coisas bem práticas, tais como pescar. O mito impõe rituais para as mais variadas situações da vida humana: nascimento, passagem da infância para a vida adulta, caça, cultivo de alimentos, morte; aliado aos rituais, faz reviver um momento mítico e permite controlar em alguma medida certos fenômenos da natureza. Como se vê, nas sociedades onde o mito é algo vivo, ele é muito mais do que uma história contada para satisfazer uma curiosidade científica ou fazer passar o tédio.

E o mito hoje?

Voltando ao início do nosso texto, podemos nos perguntar: e hoje, na nossa sociedade, será que o mito é apenas uma história enganosa? Será que o mito não está mais presente de outras formas?

Referências

Armstrong, Karen. Uma breve história do mito. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Eliade, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 1972.

Greene, Liz. Uma viagem através dos mitos. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

Notas
  1. Greene, Liz. Uma viagem através do mito, p. 63.[]
  2. Eliade, Mircea. Mito e Realidade, p. 12.[]
  3. Eliade, Mircea. Mito e Realidade, p. 10.[]

Tatim, William Godoy. O que é mito?. Filosofia na Escola, 2021. Disponível em: < https://filosofianaescola.com/metafisica/o-que-e-mito/>. Acesso em: 17 de Apr. de 2121.

This post has 2 Comments

  1. Miguel Antonio d' Amorim Junior disse:

    Parabéns pelo artigo. Muito obrigado pela partilha do conteúdo. Como professor de Filosofia na escola pública, eu sempre usufruo deste site e indico aos meus alunos.

    1. Filosofia na Escola disse:

      Olá, Miguel. Muito obrigado pelo reconhecimento. Seja sempre bem-vindo!

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