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Questões de Filosofia do ENEM 2025: temas, autores e análise

Questões de Filosofia do ENEM 2025: temas, autores e análise

A prova do Enem 2025 apresentou um conjunto expressivo de questões de filosofia que exploram temas centrais do pensamento ético e político. Entre os autores abordados estão Platão e Aristóteles, representando a filosofia clássica; Hume e Bentham, como expoentes da tradição moderna; e Foucault, Marcuse e Bobbio, que trazem a reflexão contemporânea sobre poder, sociedade e direitos humanos. A prova também incluiu uma questão inspirada em Clarice Lispector, que, embora não seja filósofa de formação, propõe uma reflexão ética e existencial sobre o altruísmo e a sensibilidade diante da injustiça, mostrando a abertura do Enem para textos literários com alcance filosófico.

As questões concentraram-se em problemas como a relação entre ética e política, a natureza da justiça, o papel da punição e da felicidade na vida coletiva, o funcionamento do poder disciplinar e a transformação histórica dos direitos humanos. Também apareceram temas ligados à racionalidade moderna, à crítica social e à dimensão moral das ações humanas. Essa diversidade fez da prova um panorama bastante representativo da filosofia enquanto reflexão sobre a experiência humana em suas múltiplas formas, do pensamento clássico ao contemporâneo, do campo teórico ao social.

Esse texto reúne comentários detalhados de cada uma dessas questões, explicando o conteúdo filosófico envolvido, a lógica da alternativa correta e o motivo das incorreções das demais opções. Cada análise busca ajudar o estudante a compreender não apenas o gabarito, mas também o raciocínio filosófico que sustenta cada resposta.

Questão 1

A “invenção” dessa nova anatomia política não deve ser entendida como uma descoberta súbita. Mas como uma multiplicidade de processos muitas vezes mínimos, de origens diferentes, de localizações esparsas, que se recordam, que se repetem, ou se imitam, apoiam-se uns sobre os outros e esboçam aos poucos a fachada de um método geral. Encontramo-los em funcionamento nos colégios, muito cedo; mais tarde, nas escolas primárias, no espaço hospitalar e na organização militar.

FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 2011.

O texto indica o seguinte aspecto da disciplina como ferramenta política:

A) Expansão das técnicas de suplício.

B) Judicialização das relações de poder.

C) Dissolução das distinções de nobreza.

D) Capilarização das práticas de controle.

E) Espetacularização das medidas de penitência.

Análise

O texto é um trecho clássico de Vigiar e Punir, de Michel Foucault, uma das obras mais importantes para entender como o poder se exerce nas sociedades modernas. Foucault está descrevendo a passagem de uma forma antiga de poder, baseada no castigo visível, na dor, na punição corporal, para uma forma nova, mais sutil, que ele chama de disciplina.

Ele diz que essa transformação não aconteceu de repente (“não deve ser entendida como uma descoberta súbita”), mas foi o resultado de vários pequenos processos, espalhados em diferentes lugares, como escolas, quartéis, hospitais, prisões, que, aos poucos, formaram um novo modo de controle social.

Ou seja, a “nova anatomia política” de que ele fala é uma maneira de moldar os corpos e as condutas das pessoas. Essa disciplina não se dá mais por meio do suplício público, mas por técnicas de vigilância, normalização e controle contínuo, que penetram o cotidiano.

Vamos analisar as alternativas:

A) Expansão das técnicas de suplício

Incorreta. Justamente o contrário: Foucault mostra que as técnicas de suplício, aquelas punições públicas e cruéis, foram substituídas por práticas de controle mais discretas e contínuas. O suplício dá lugar à disciplina.

B) Judicialização das relações de poder

Incorreta. O foco do texto não é o poder judiciário nem a aplicação das leis, mas a forma como o poder se espalha e se internaliza nas instituições sociais, independentemente da lei.

C) Dissolução das distinções de nobreza

Incorreta. Foucault não está falando de classes sociais ou hierarquias de nobreza, e sim de como o poder moderno atua sobre todos, por meio da disciplina.

D) Capilarização das práticas de controle

Correta. “Capilarização” é a palavra-chave aqui. Foucault diz que o poder se torna capilar, isto é, se espalha como uma rede de pequenos mecanismos que chegam a todos os níveis da sociedade — colégios, hospitais, quartéis etc. Cada um desses lugares reproduz o mesmo tipo de controle disciplinar.

E) Espetacularização das medidas de penitência

Incorreta. Foucault justamente mostra o fim do “espetáculo” das punições públicas e o início de uma punição invisível, silenciosa, cotidiana — a vigilância e o controle constante.

Questão 2

O corpo de cidadãos é o poder supremo dos Estados. A supremacia pode residir ou num homem, ou na minoria, ou em todos. Sempre que o Um, ou a Minoria, ou Todos governam, tendo em vista o bem-estar comum, essas constituições são justas; mas se procuram apenas o benefício de uma das partes, seja ela o Um, a Minoria ou Todos, estabelece-se um desvio.

ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Nova Cultural, 2000.

No excerto encontra-se a base da teoria clássica das três formas de governo representadas pela

A) tirania, oligarquia e república.

B) burocracia, autarquia e império.

C) ditadura, autocracia e anarquia.

D) plutocracia, tecnocracia e demagogia.

E) monarquia, aristocracia e democracia.

Análise

O texto é um trecho fundamental da Política de Aristóteles, onde ele explica sua famosa teoria das três formas clássicas de governo. Para o filósofo, o que define uma forma de governo não é apenas quem governa, se é um, poucos ou muitos, mas principalmente com que finalidade se governa.

Quando o governo busca o bem comum, ele é justo; quando busca o interesse particular (de quem governa), ele é injusto e se torna uma forma corrompida.

Vamos entender isso melhor:

  • Quando um só governa pelo bem comum → temos a monarquia.
    • Mas, se esse governante busca apenas o próprio interesse → vira tirania.
  • Quando poucos governam pelo bem comum → temos a aristocracia.
    • Se governam para benefício próprio → transforma-se em oligarquia.
  • Quando a maioria governa pelo bem comum → temos a democracia (que, em Aristóteles, ainda tinha um sentido mais neutro, ligado ao governo dos muitos).
    • Porém, se a maioria governa pensando apenas em si mesma, e não no bem coletivo, surge uma forma degenerada que ele chama de demagogia.

Perceba como o texto de Aristóteles já antecipa essa ideia:

“Sempre que o Um, ou a Minoria, ou Todos governam, tendo em vista o bem-estar comum, essas constituições são justas; mas se procuram apenas o benefício de uma das partes, [...] estabelece-se um desvio.”

Ou seja, as formas de governo justas são monarquia, aristocracia e democracia, enquanto suas versões corrompidas são tirania, oligarquia e demagogia.

Agora, vejamos as alternativas:

A) tirania, oligarquia e república. Incorreta. A tirania e a oligarquia são formas corrompidas; e “república” aqui não é um termo usado por Aristóteles.

B) burocracia, autarquia e império. Incorreta. Esses termos pertencem a contextos modernos e administrativos, não à teoria política clássica.

C) ditadura, autocracia e anarquia. Incorreta. Também são conceitos modernos e não aparecem no pensamento aristotélico.

D) plutocracia, tecnocracia e demagogia. Incorreta. São formas específicas de poder (dos ricos, dos técnicos, das massas), mas não correspondem às três formas justas descritas por Aristóteles.

E) monarquia, aristocracia e democracia. Correta. Essas são, segundo Aristóteles, as três formas legítimas de governo, porque visam o bem comum.

Questão 3

O direito não é a justiça. O direito é o elemento do cálculo, é justo que haja um direito, mas a justiça é incalculável, ela exige que se calcule o incalculável; e as experiências aporéticas são experiências tão improváveis quanto necessárias da justiça, isto é, são momentos em que a decisão entre o justo e o injusto nunca é garantida por uma regra.

DERRIDA, J. Força de lei. São Paulo: Martins Fontes, 2010 (adaptado).

De acordo com o texto, ainda que estejam em desconformidade com o ordenamento jurídico, são exemplos de ação justa:

A) Casos de desobediência civil.

B) Repressões do aparato estatal.

C) Conflitos de natureza intercontinental.

D) Manifestações do movimento sindical.

E) Mobilizações de agremiações estudantis.

Análise

O texto de Jacques Derrida propõe uma distinção fundamental entre direito e justiça. Ele começa dizendo:

“O direito não é a justiça. O direito é o elemento do cálculo... mas a justiça é incalculável.”

Isso significa que o direito é o conjunto de normas, leis e procedimentos que organizam a vida em sociedade: ele é calculável, previsível, baseado em regras. Já a justiça, segundo Derrida, ultrapassa o direito. Ela exige uma reflexão singular, um julgamento que não pode ser totalmente previsto ou reduzido a uma lei escrita.

Quando Derrida afirma que a justiça exige “calcular o incalculável”, ele está dizendo que ser justo implica ir além da simples aplicação da lei. Há situações em que seguir a lei pode não ser o mais justo, e, por outro lado, agir contra a lei pode ser o que a justiça exige.

Um bom exemplo disso é a desobediência civil: quando indivíduos ou grupos desobedecem leis consideradas injustas para defender princípios éticos mais altos. Pense, por exemplo, em Martin Luther King Jr. lutando contra as leis de segregação racial nos Estados Unidos. Suas ações eram ilegais, mas profundamente justas sob a ótica moral.

Vamos analisar as alternativas:

A) Casos de desobediência civil

Correta. Essa é a melhor resposta porque expressa exatamente o tipo de ação que Derrida chama de “experiência aporética”: uma situação em que o justo e o injusto não podem ser decididos apenas por uma regra jurídica. A desobediência civil é uma forma de agir em nome da justiça, mesmo contra a lei.

B) Repressões do aparato estatal

Incorreta. A repressão é o uso da força para impor a lei, é o oposto da ideia de Derrida, que valoriza o questionamento crítico do direito.

C) Conflitos de natureza intercontinental

Incorreta. Esses conflitos são de ordem política e militar, e não expressam a relação entre direito e justiça discutida no texto.

D) Manifestações do movimento sindical

Incorreta. Embora possam expressar reivindicações legítimas, nem toda manifestação sindical envolve uma ruptura com a lei ou um questionamento ético do direito.

E) Mobilizações de agremiações estudantis

Incorreta. Da mesma forma, mobilizações estudantis podem ser importantes politicamente, mas o texto trata de situações em que há tensão direta entre lei e justiça, o que define melhor a desobediência civil.

Questão 4

A credulidade dos ouvintes aumenta o descaramento do narrador, e o descaramento deste conquista-lhes a credulidade. A eloquência, quando levada a seu patamar mais alto, deixa pouco lugar à razão ou à reflexão, mas, dirigindo-se inteiramente à imaginação e aos afetos, cativa os ouvintes condescendentes e subjuga-lhes o entendimento.

HUME, D. Uma investigação sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. São Paulo: Edunesp, 2003.

No contexto do século XVIII, o autor propõe uma reflexão radical acerca da arte da eloquência, restringindo-a ao

A) sistema de crenças, conforme a proposta kantiana de objetividade do conhecimento.

B) campo dos absolutos, semelhante ao entendimento medieval dos Universais.

C) domínio da lógica, consoante a compreensão aristotélica nos Analíticos.

D) paradigma da racionalidade, alinhado ao modelo cartesiano de método.

E) âmbito da persuasão, análogo às críticas platônicas aos sofistas.

Análise

O texto é de David Hume, um dos principais filósofos do Iluminismo britânico e expoente do empirismo. Aqui, Hume fala sobre a eloquência — isto é, o poder da fala e da retórica — e faz uma crítica importante: quando a eloquência apela demais à imaginação e aos afetos, ela deixa de lado a razão e a reflexão.

Ele escreve:

“A eloquência, quando levada a seu patamar mais alto, deixa pouco lugar à razão ou à reflexão, mas, dirigindo-se inteiramente à imaginação e aos afetos, cativa os ouvintes...”

Perceba o tom crítico: a eloquência, nesse caso, não está ajudando o pensamento racional, mas manipulando as emoções e subjugando o entendimento. Hume, como um pensador empirista e crítico das ilusões da razão pura, está chamando atenção para o perigo da retórica — o mesmo tipo de preocupação que Platão já tinha ao criticar os sofistas.

Os sofistas eram mestres da oratória que, na Grécia Antiga, usavam a eloquência para persuadir, muitas vezes sem compromisso com a verdade. Platão, em obras como Górgias, denunciava essa prática como uma forma de engano intelectual, em que o discurso serve mais para convencer do que para esclarecer.

Hume, embora em outro contexto (século XVIII), recupera essa desconfiança: ele também vê na eloquência um poder de persuasão que pode ser perigoso quando substitui o raciocínio crítico.

Agora vejamos as alternativas:

A) Sistema de crenças, conforme a proposta kantiana de objetividade do conhecimento.

Incorreta. Kant é posterior a Hume, e sua proposta de conhecimento objetivo busca justamente superar o empirismo. O texto de Hume não trata de crença religiosa nem de uma teoria do conhecimento kantiana.

B) Campo dos absolutos, semelhante ao entendimento medieval dos Universais.

Incorreta. Hume rejeita qualquer noção de “absoluto”. Sua filosofia é empirista, voltada à experiência sensível, e não à metafísica medieval dos Universais.

C) Domínio da lógica, consoante a compreensão aristotélica nos Analíticos.

Incorreta. O texto não valoriza a lógica formal, mas critica a eloquência justamente por afastar-se da razão.

D) Paradigma da racionalidade, alinhado ao modelo cartesiano de método.

Incorreta. O texto de Hume é crítico do racionalismo cartesiano — ele não quer elevar a eloquência à racionalidade pura, mas mostrar seus limites.

E) Âmbito da persuasão, análogo às críticas platônicas aos sofistas.

Correta. Essa é a alternativa que melhor se encaixa no texto e no contexto. Hume, assim como Platão, critica a eloquência quando ela serve para persuadir emocionalmente em vez de esclarecer racionalmente. A eloquência, nesse sentido, pertence ao campo da persuasão, não da razão.

Questão 5

Os direitos do homem constituem uma classe variável, como a história destes últimos séculos demonstra suficientemente.

O elenco dos direitos do homem se modificou, e continua a se modificar, com a mudança das condições históricas, ou seja, dos carecimentos e dos interesses, das classes no poder, dos meios disponíveis para a realização dos mesmos, das transformações técnicas. Direitos que foram declarados absolutos no final do século XVIII foram submetidos a radicais limitações nas declarações contemporâneas; direitos que as declarações do século XVIII nem sequer mencionavam, como os direitos sociais, são agora proclamados com grande ostentação nas recentes declarações.

BOBBIO, N. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

Os argumentos apresentados no texto sustentam que os direitos humanos são variáveis porque os considera como

A) fenômenos espontâneos.

B) conquistas atemporais.

C) convenções coletivas.

D) resquícios religiosos.

E) imposições políticas.


Análise

O texto de Norberto Bobbio, um dos grandes pensadores políticos do século XX, propõe uma reflexão histórica sobre os direitos humanos. Ele começa afirmando que “os direitos do homem constituem uma classe variável”, ou seja, mudam ao longo do tempo.

Isso já é um ponto essencial: Bobbio quer mostrar que os direitos humanos não são imutáveis nem naturais, mas históricos, eles nascem de condições concretas, das necessidades e lutas de cada época.

Ele explica:

“O elenco dos direitos do homem se modificou, e continua a se modificar, com a mudança das condições históricas, dos carecimentos e dos interesses, das classes no poder...”

Veja como ele vincula os direitos à sociedade: conforme mudam as condições econômicas, técnicas e políticas, mudam também os direitos reconhecidos. No século XVIII, por exemplo, predominavam os direitos civis e políticos, ligados à liberdade individual e à limitação do poder do Estado. Já no século XX, surgem os direitos sociais, como o direito ao trabalho, à educação e à saúde.

Essas transformações mostram que os direitos não surgem do nada (não são “fenômenos espontâneos”) nem valem para todo o tempo da mesma forma (não são “conquistas atemporais”). Eles resultam de acordos coletivos, de lutas políticas e sociais, que se consolidam em declarações e leis.

Portanto, Bobbio entende os direitos humanos como construções históricas e convencionais, criadas pela ação humana em sociedade.

Vamos às alternativas:

A) Fenômenos espontâneos

Incorreta. Os direitos não nascem de forma espontânea, mas de processos históricos e políticos.

B) Conquistas atemporais

Incorreta. Bobbio afirma exatamente o contrário: os direitos são mutáveis, não atemporais.

C) Convenções coletivas

Correta. Essa é a essência do argumento de Bobbio. Os direitos humanos são fruto de construções históricas e sociais, acordos e convenções que refletem as necessidades e valores de cada época.

D) Resquícios religiosos

Incorreta. Embora algumas ideias sobre dignidade humana tenham raízes religiosas, o texto de Bobbio é laico e histórico, ele trata de direitos como produtos da evolução social e política.

E) Imposições políticas

Incorreta. Os direitos podem ter força política, mas Bobbio não os vê como imposições, e sim como conquistas sociais reconhecidas coletivamente.

Questão 6

A missão dos governantes consiste em promover a felicidade da sociedade, punindo e recompensando. A parte da missão de governo que consiste em punir constitui mais particularmente o objeto da lei penal. A obrigatoriedade ou necessidade de punir uma ação é proporcional à medida que tal ação tende a perturbar a felicidade e à medida que a tendência do referido ato é perniciosa. A felicidade consiste naquilo que já vimos, ou seja, em desfrutar prazeres e em estar isento de dores.

BENTHAM, J. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação. São Paulo: Abril Cultural, 1974 (adaptado).

Qual perspectiva de justiça emerge da relação, estabelecida no texto, entre punição e felicidade?

A) Aplicação de meios para atingir um fim.

B) Imposição de regras para estabelecer um dever.

C) Sobreposição de princípios para fundamentar um direito.

D) Criação de parâmetros para reconhecer uma prescrição.

E) Elaboração de convenções para referendar um costume.


Análise

O texto é de Jeremy Bentham, filósofo inglês do século XVIII, considerado o fundador do utilitarismo. Essa corrente ética e política parte de um princípio simples: as ações humanas devem ser julgadas pelo resultado que produzem, especialmente no que diz respeito à felicidade e à redução do sofrimento.

Por isso, Bentham define a felicidade como “desfrutar prazeres e estar isento de dores”. Essa é a base da chamada moral utilitarista: o bem é aquilo que maximiza o prazer e minimiza a dor, tanto para o indivíduo quanto para o conjunto da sociedade.

No texto, ele aplica essa ideia ao campo da justiça penal. Punir não é um fim em si mesmo, mas um meio de promover o bem-estar social. A punição é justa apenas se servir para diminuir os males e aumentar a felicidade coletiva.

Perceba o raciocínio:

“A obrigatoriedade ou necessidade de punir uma ação é proporcional à medida que tal ação tende a perturbar a felicidade.”

Ou seja, o castigo só é legítimo se ele for útil, se contribuir para restaurar o equilíbrio social e evitar sofrimentos maiores. Se a punição não gerar benefício algum, se não aumentar o bem-estar geral, ela se torna injusta.

Essa lógica caracteriza uma visão consequencialista da justiça: o valor de uma ação (ou de uma lei) depende dos resultados que ela produz.

Vamos analisar as alternativas:

A) Aplicação de meios para atingir um fim.

Correta. Essa é exatamente a lógica utilitarista: a punição (meio) deve ser aplicada apenas se contribuir para o bem-estar coletivo (fim). A justiça é medida pelos efeitos práticos da ação, não por princípios abstratos.

B) Imposição de regras para estabelecer um dever.

Incorreta. Essa formulação se aproxima mais do pensamento de Kant, que valoriza o dever moral em si, independentemente das consequências, o oposto do utilitarismo.

C) Sobreposição de princípios para fundamentar um direito.

Incorreta. Bentham não fala em princípios abstratos ou direitos naturais; sua filosofia é pragmática e empírica.

D) Criação de parâmetros para reconhecer uma prescrição.

Incorreta. A punição, em Bentham, não se baseia em prescrições formais, mas na utilidade social de cada ato.

E) Elaboração de convenções para referendar um costume.

Incorreta. A moral utilitarista não se apoia em costumes ou tradições, mas em cálculos racionais de prazer e dor.

Questão 7

TEXTO I

Em conjunto: todo e não todo, unido e separado, em consonância e em dissonância. De todos um e de um todos.

(Fragmento B10)

TEXTO II

Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz, saciedade-fome.

(Fragmento B67)

Pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

A característica do pensamento do filósofo Heráclito, registrada nos fragmentos mencionados, é a ênfase na

A) qualidade imperceptível do mundo.

B) degradação material da natureza.

C) imobilidade imanente do universo.

D) distribuição dicotômica do cosmos.

E) desordem incontornável das coisas.

Análise

Os dois fragmentos apresentados pertencem ao filósofo Heráclito de Éfeso, um dos pensadores pré-socráticos mais conhecidos por sua visão dinâmica e paradoxal da realidade.

Heráclito via o mundo como um processo contínuo de mudança e tensão entre contrários. Sua famosa expressão — “tudo flui” (panta rhei) — sintetiza essa ideia de que nada é fixo, tudo está em constante transformação.

Nos fragmentos, vemos exatamente essa lógica paradoxal:

“todo e não todo, unido e separado, em consonância e em dissonância.”

“Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz, saciedade-fome.”

Heráclito quer mostrar que os opostos não se excluem, mas se complementam. O mundo é uma unidade dos contrários, uma harmonia que nasce do conflito — o que ele chama de “consonância e dissonância”.

Esse pensamento é muito diferente, por exemplo, do de Parmênides, que via o ser como algo imutável e uno. Para Heráclito, ao contrário, a realidade só existe no movimento e na tensão.

Portanto, a característica central aqui é o equilíbrio dinâmico entre opostos, o que podemos chamar de uma distribuição dicotômica do cosmos: tudo existe em relação ao seu contrário.

Vamos às alternativas:

A) Qualidade imperceptível do mundo.

Incorreta. Heráclito não fala de algo oculto ou imperceptível, mas de um princípio universal que se manifesta nas contradições visíveis do mundo.

B) Degradação material da natureza.

Incorreta. Não há no texto nenhuma ideia de corrupção ou decadência da natureza.

C) Imobilidade imanente do universo.

Incorreta. Essa é justamente a visão de Parmênides, o oposto de Heráclito, para quem tudo está em fluxo e transformação.

D) Distribuição dicotômica do cosmos.

Correta. Essa expressão descreve perfeitamente a filosofia heraclítica: o mundo é organizado por pares de opostos, dia e noite, guerra e paz, fome e saciedade, que coexistem em tensão e equilíbrio.

E) Desordem incontornável das coisas.

Incorreta. Para Heráclito, o mundo não é caótico; existe uma ordem racional (o logos) que governa o movimento e a oposição dos contrários.

Questão 8

A cidade justa é governada pelos filósofos, administrada pelos cientistas, protegida pelos guerreiros e mantida pelos produtores. Cada classe cumprirá sua função para o bem da pólis, racionalmente dirigida pelos filósofos. Em contrapartida, a cidade injusta é aquela onde o governo está nas mãos dos proprietários — que não pensam no bem comum da pólis e lutarão por interesses econômicos particulares.

CHAUI, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2000.

O texto apresenta a estrutura de governo da cidade ideal pensada por Platão, que postula uma indissociabilidade entre

A) cognição e relação intersubjetiva.

B) mitologia e teorias cosmogônicas.

C) cidadania e primazia da retórica.

D) moralidade e virtudes cardeais.

E) ética e exercício do poder.

Análise

O texto apresenta a concepção platônica da cidade ideal, descrita principalmente na obra A República. Nela, Platão propõe que a justiça de uma cidade depende da harmonia entre suas partes, e que o governo deve ser conduzido por aqueles que são capazes de conhecer o Bem em si, isto é, os filósofos.

No trecho, Marilena Chaui resume essa ideia ao mostrar a divisão funcional da pólis:

  • Filósofos → governam, pois possuem sabedoria e buscam o bem comum;
  • Guerreiros → defendem a cidade;
  • Produtores → sustentam a sociedade com seu trabalho.

Essa divisão não é apenas prática, mas moral: cada classe deve cumprir seu papel de acordo com a virtude que lhe corresponde.

Platão afirma que a cidade é justa quando cada parte cumpre a sua função, guiada pela razão.

As virtudes cardeais (ou principais) que estruturam tanto o indivíduo quanto a cidade são:

  • Sabedoria, própria dos governantes (filósofos);
  • Coragem, própria dos guerreiros;
  • Temperança, própria dos produtores;
  • Justiça, que harmoniza todas as partes e garante o equilíbrio entre elas.

Portanto, a cidade justa só existe quando há uma relação inseparável entre moralidade (virtudes) e estrutura política (governo). O exercício do poder precisa estar subordinado à ética e à busca do bem comum — e é exatamente isso que distingue o governo dos filósofos do governo dos proprietários ou tiranos, que agem por interesse próprio.

Vejamos as alternativas:

A) Cognição e relação intersubjetiva.

Incorreta. Essa relação é mais próxima do pensamento moderno, não da teoria política de Platão.

B) Mitologia e teorias cosmogônicas.

Incorreta. Platão fala de mitos em outros contextos, mas o texto trata da organização racional e ética da cidade.

C) Cidadania e primazia da retórica.

Incorreta. A retórica é associada aos sofistas, que Platão critica duramente por usarem o discurso sem compromisso com a verdade.

D) Moralidade e virtudes cardeais.

Correta. O texto descreve justamente a estrutura moral da cidade ideal, baseada nas virtudes cardeais: sabedoria, coragem, temperança e justiça. A harmonia entre essas virtudes garante a moralidade do poder e a justiça social.

E) Ética e exercício do poder.

Parcialmente correta, mas incompleta. Embora Platão realmente defenda que o poder deve estar submetido à ética, o texto enfatiza a organização moral da cidade segundo as virtudes cardeais, não apenas a relação geral entre ética e poder.

Questão 9

O que eu queria ter sido

Um nome para o que sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser. O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de “a protetora dos animais”. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la. E eu sentia o drama social com tamanha intensidade que vivia de coração perplexo diante das grandes injustiças a que são submetidas as chamadas classes menos privilegiadas.

LISPECTOR, C. Aprendendo a viver. Rio de Janeiro: Rocco Digital, 2013.

A reflexão contida no texto faz referência aos pressupostos de uma doutrina ética representada pelo

A) estado eudaimônico.

B) referencial hedonista.

C) pensamento altruísta.

D) movimento antiespecista.

E) comportamento pragmático.

Análise

O texto de Clarice Lispector é uma reflexão pessoal, mas carrega um forte conteúdo ético. Ela fala de um ideal de vida voltado não para si mesma, mas para o bem dos outros.

Logo no início, ela diz:

“O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros.”

Essa frase é o núcleo moral do texto. Clarice expressa o desejo de agir em defesa de outras pessoas, de lutar contra as injustiças sociais, uma atitude movida pela empatia e pela solidariedade. Desde pequena, ela se identificava com quem sofria injustiças e sentia “o drama social com tamanha intensidade” que se via compelida a reagir.

Essa disposição interior corresponde a um tipo de ética que valoriza o outro como centro da ação moral, a ética do altruísmo.

O altruísmo é uma doutrina ou atitude moral segundo a qual o indivíduo age em benefício de outras pessoas, buscando o bem comum, mesmo que isso não lhe traga vantagens pessoais. O termo foi popularizado por Auguste Comte, o criador do positivismo, para designar o oposto do egoísmo.

Clarice, no texto, descreve justamente esse impulso: a inclinação espontânea a proteger, amparar e lutar pelos outros, especialmente os mais vulneráveis.

Agora vejamos as alternativas:

A) Estado eudaimônico.

Incorreta. O eudaimonismo, associado a Aristóteles, está ligado à busca da felicidade como realização da vida racional e virtuosa. Embora o texto envolva virtude, seu foco está na dedicação ao outro, não na própria felicidade.

B) Referencial hedonista.

Incorreta. O hedonismo defende que o bem supremo é o prazer e a ausência de dor. Clarice fala de luta, sacrifício e empatia — ideias opostas à busca do prazer pessoal.

C) Pensamento altruísta.

Correta. O texto é uma expressão clara de altruísmo: a vontade de viver em função dos outros, de lutar contra as injustiças e de proteger quem sofre.

D) Movimento antiespecista.

Incorreta. Embora Clarice mencione “protetora dos animais”, o foco do texto é ético e humano, o sofrimento das pessoas e a injustiça social, não a questão dos direitos dos animais.

E) Comportamento pragmático.

Incorreta. O pragmatismo valoriza a utilidade e os resultados práticos das ações, mas o texto de Clarice fala de uma disposição moral e afetiva, não de eficácia prática.

Questão 10

Independência de pensamento, autonomia e direito à oposição política estão perdendo sua função crítica básica numa sociedade que parece cada vez mais capaz de atender às necessidades dos indivíduos através da forma pela qual é organizada. Nas condições de um padrão de vida crescente, o não conformismo com o próprio sistema parece socialmente inútil, principalmente quando acarreta desvantagens econômicas e políticas tangíveis e ameaça o funcionamento suave do todo.

MARCUSE, H. Ideologia da sociedade industrial. Rio de Janeiro: Zahar, 1969.

Qual é a característica da sociedade industrial do século XX apresentada no texto?

A) Gestão integrada.

B) Relativismo moral.

C) Desobediência civil.

D) Realidade unidimensional.

E) Desenvolvimento tecnológico.

Análise

O texto é de Herbert Marcuse, filósofo da Escola de Frankfurt, um dos grandes críticos da sociedade industrial e tecnológica do século XX.

Marcuse observava que, nas sociedades modernas e capitalistas, o progresso tecnológico e o aumento do bem-estar material vinham acompanhados de algo perigoso: uma perda da capacidade crítica e da autonomia do indivíduo.

Repare no trecho:

“Independência de pensamento, autonomia e direito à oposição política estão perdendo sua função crítica básica…”

Isso significa que, mesmo que as pessoas vivam com mais conforto — com mais bens, tecnologia e estabilidade econômica —, elas se tornam mais conformadas, menos propensas a questionar a ordem vigente.

A sociedade industrial produz um tipo de ser humano que acredita estar livre e satisfeito, mas que, na verdade, se adapta ao sistema e pensa dentro de seus limites. Essa é a condição que Marcuse chama de “realidade unidimensional”: uma sociedade em que não há espaço para a negação, para o pensamento crítico, para a imaginação de alternativas ao modo de vida dominante.

O “padrão de vida crescente” mencionado no texto é o que torna o sistema tão eficaz: ele oferece conforto em troca de conformismo. Assim, a técnica e a produção de bens passam a ser também instrumentos de controle social.

Vejamos as alternativas:

A) Gestão integrada.

Incorreta. Essa expressão diz respeito à administração e organização econômica, não à crítica filosófica de Marcuse.

B) Relativismo moral.

Incorreta. O texto não trata de valores morais variáveis, mas da perda de criticidade e autonomia.

C) Desobediência civil.

Incorreta. O texto fala do enfraquecimento da oposição, e não de sua prática.

D) Realidade unidimensional.

Correta. Essa é a expressão central do pensamento de Marcuse. A “realidade unidimensional” caracteriza a sociedade tecnológica avançada, onde o indivíduo perde sua dimensão crítica e vive adaptado ao sistema, acreditando que não há alternativas.

E) Desenvolvimento tecnológico.

Incorreta. O desenvolvimento tecnológico é mencionado apenas como parte do contexto — não é o foco da crítica, mas o meio pelo qual a alienação se consolida.