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Platão e o governo dos reis-filósofos

Quando você vai ao médico com uma dor no peito, ele examina, pede exames, analisa os resultados e indica o tratamento. Você pode perguntar, pode entender o raciocínio, pode buscar uma segunda opinião, mas a decisão sobre o que fazer passa pelo julgamento de quem estudou medicina por anos. Ninguém sugere convocar os familiares para votar sobre qual medicamento prescrever.

Quando um engenheiro assina a planta de um edifício, é a análise técnica dele que determina a espessura das paredes e a profundidade das fundações. Os futuros moradores não são consultados sobre os cálculos estruturais. Confiam no conhecimento de quem sabe fazer aquelas contas.

Quando um avião encontra turbulência severa, o comandante decide a rota alternativa. Os passageiros não votam. Não porque suas vidas não importem, mas porque a decisão exige um tipo de conhecimento que eles não têm.

Três situações diferentes, um padrão em comum: há decisões que entregamos a quem sabe. Nesses casos, achamos natural, até óbvio, que a competência defina quem tem a última palavra.

Platão achava que governar era exatamente esse tipo de decisão.

Família reunida na sala de estar fazendo uma votação com as mãos levantadas para decidir qual remédio dar a um homem doente, que observa a cena do sofá com expressão preocupada. Sobre a mesinha, várias caixas de remédios diferentes.
Uma assembleia familiar reunida para decidir, no voto, qual remédio dar ao doente.

A política na cidade em que viveu Platão

Platão nasceu em Atenas por volta de 427 a.C. e viveu numa cidade que havia inventado algo inédito: o governo do povo. Na democracia ateniense, os cidadãos se reuniam em assembleia para decidir sobre guerra, paz, leis e punições. Todos os que eram considerados cidadãos podiam participar das decisões.

Foi nessa cidade que Sócrates, mestre de Platão, foi condenado à morte. O tribunal que o julgou não era composto por juízes especializados, mas por 501 cidadãos comuns sorteados. A maioria votou pela condenação. Para Platão, aquele episódio revelava algo sobre a democracia que não podia ser ignorado: entregar decisões importantes a qualquer um, só porque é cidadão, pode ser perigoso.

Para Platão, governar uma cidade é como pilotar um navio. Não é uma atividade que qualquer um pode exercer só porque tem vontade ou porque foi escolhido pelos demais. Quem governa precisa saber para onde a cidade está indo, quais perigos a ameaçam, que rumo tomar diante de cada circunstância. Esse tipo de saber não se improvisa. Exige estudo, formação, longa preparação.

Sócrates, de costas em primeiro plano, observa dois cidadãos atenienses contarem os votos depositados numa urna sobre um pedestal. Ao redor, dezenas de jurados sentados em bancos de pedra acompanham a contagem.
Sócrates aguarda a contagem dos votos. 501 cidadãos comuns, sorteados entre a população de Atenas, decidiram a sua condenação. Para Platão, a cena revelava o problema da democracia.

A alegoria do navio

Na República, Platão coloca essa ideia na boca de Sócrates, que pede ao seu interlocutor, Adimanto, que imagine a seguinte cena.

Imagina, pois, que num navio ou numa frota existe um capitão mais corpulento e robusto que os seus comandados, mas um tanto surdo e curto de vista, também não muito forte no que tange aos conhecimentos náuticos. Os marinheiros estão em disputa sobre o governo do navio, convencido cada qual de que tem direito a assumir o leme, sem jamais ter aprendido a arte de timoneiro nem poder indicar quem foi seu mestre ou a ocasião em que estudou 1.

Os marinheiros cercam o capitão, brigam entre si pelo comando, eliminam quem se opõe a eles e tomam o leme à força. Quem consegue convencer os outros ou impor a sua vontade é chamado de bom piloto. Quem se recusa a participar dessa disputa é tachado de inútil. E o verdadeiro navegador, aquele que estudou os ventos, os astros e as correntes? Esse fica de lado, ridicularizado como um sonhador que não serve para nada.

A imagem é precisa. Num navio em alto mar, ninguém duvida de que existe uma diferença entre saber navegar e querer navegar. A vida da tripulação inteira depende de quem está no leme conhecer o seu ofício. E justamente por isso, ninguém em sã consciência proporia que o comando do navio fosse decidido por votação entre marinheiros que nunca estudaram navegação.

Por que então, pergunta Platão, aceitamos esse arranjo quando o que está em jogo é o governo de uma cidade inteira?

Governar é mais difícil do que pilotar

Aqui vale parar um momento e pensar no que significava governar Atenas no tempo de Platão. A cidade tinha cerca de trezentos mil habitantes, mantinha colônias espalhadas pelo Mediterrâneo, vivia em guerra ou na iminência dela, dependia do comércio marítimo para se alimentar, abrigava cultos religiosos diversos, lidava com tensões constantes entre ricos e pobres. As decisões da assembleia podiam declarar guerra contra Esparta, condenar generais à morte, impor tributos, exilar cidadãos, redistribuir terras.

Para Platão, cada uma dessas decisões exigia entender as suas próprias consequências. Declarar guerra sem conhecer o estado das tropas, das finanças e dos aliados pode levar a cidade ao desastre. Condenar um general derrotado sem entender as circunstâncias da derrota pode eliminar justamente o comandante mais capaz de vencer a próxima batalha. Impor um tributo sem saber como a economia responde pode arruinar o comércio que sustenta a cidade. Para Platão, quando quem decide não compreende o terreno em que está pisando, cada voto se torna uma aposta cega.

Pilotar um navio exige conhecer ventos, astros, correntes e o comportamento da própria embarcação. Governar uma cidade, na visão de Platão, exige tudo isso e muito mais. Quem governa precisa entender de finanças públicas para saber se a cidade aguenta uma guerra. Precisa entender de estratégia militar para decidir quando atacar e quando recuar. Precisa entender de comércio para negociar com outras cidades. Precisa entender de leis para julgar casos difíceis. Precisa entender das próprias pessoas que governa, dos seus interesses, das suas divisões, das suas paixões.

Se entregar o leme de um navio a quem não estudou navegação já parece imprudente, Platão considerava ainda mais grave entregar o destino de uma cidade inteira a quem nunca se preparou para essa tarefa.

O governo dos reis-filósofos

Se governar exige conhecimento, e a maioria das pessoas não possui esse conhecimento, então quem deveria estar no leme da cidade?

A resposta de Platão: aqueles que dedicaram a vida ao estudo. Não os mais ricos, nem os mais populares, nem os mais eloquentes. Os que conhecem. Platão chama essas pessoas de filósofos, e propõe que eles se tornem reis, ou que os reis se tornem filósofos. A fórmula ficou conhecida como o governo dos reis-filósofos.

À primeira vista, a proposta soa estranha. Imaginar um filósofo no comando de um país parece coisa de fantasia. Mas Platão não tinha em mente o estereótipo do pensador distraído. Para ele, o filósofo é justamente o oposto disso: alguém que estudou matemática, geometria, astronomia, dialética, ética e política durante décadas. Alguém que se preparou para governar do mesmo modo que um médico se prepara para curar ou um navegador se prepara para conduzir um navio.

Na República, Platão descreve em detalhe essa formação. Os futuros governantes seriam selecionados desde a infância entre as crianças mais aptas, passariam por uma educação rigorosa em ginástica, música, matemática e filosofia, e só depois dos cinquenta anos, depois de provarem o seu caráter em provas práticas, estariam prontos para governar. Quem chegasse ao final desse percurso teria não só o conhecimento técnico necessário, mas também a serenidade de espírito para não se deixar levar por interesses pessoais, pela vaidade ou pela ambição.

Para Platão, esse era o único arranjo capaz de garantir um bom governo. Confiar a cidade a pessoas escolhidas por votação popular era, no fundo, a mesma coisa que entregar o navio aos marinheiros amotinados. O resultado, mais cedo ou mais tarde, seria o naufrágio.

Referência

Platão. A República. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.