O que é um bom argumento?

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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
dezembro 2019 - 5 min de leitura

Há uma diferença clara entre um argumento e um bom argumento. Sempre que chego a uma conclusão e ofereço alguma informação que a justifique, apresentei um argumento. No entanto, não significa que ele seja bom.

Para termos um bom argumento é necessário um conjunto de condições e três delas são indispensáveis:

  1. As premissas do argumento devem ser verdadeiras ou pelo menos aceitáveis para uma pessoa razoável.
  2. As premissas devem oferecer informações relevantes para justificar a conclusão.
  3. As premissas devem oferecer informações suficientes para justificar a conclusão.

Vamos entender como reconhecer cada um desses elementos em um argumento, mas antes disso é importante esclarecer um ponto.

Um erro comum cometido por pessoas que não têm contato com o estudo da argumentação é pensar que um bom argumento é aquele com o qual concordamos com a conclusão. Então, se o argumento defende X e acredito que X é verdade, digo que é um bom argumento.

Evite cometer esse tipo de erro. Podem existir argumentos bons que defendem conclusões contrárias ao que acreditamos e podem existir argumentos ruins que defendem exatamente o que pensamos. Considere sempre que um argumento bom deve atender aos três critérios acima, não estar de acordo com nossa opinião.

Premissas aceitáveis

Considere o argumento abaixo:

Todo gato tem duas pernas.

Miau é um gato.

Portanto, Miau tem duas pernas.

O argumento acima tem um defeito grave. A primeira premissa (“todo gato tem duas pernas”) é claramente falsa e esse problema acaba comprometendo a conclusão de que Miau tem duas pernas. Esse argumento é ruim, portanto, porque viola a primeira regra de um bom argumento.

Esse é um exemplo simples. Há casos mais complexos nos quais é difícil avaliar se as premissas são verdadeiras ou pelo menos aceitáveis. Considere o exemplo abaixo:

Passamos a ter almas quado somos concebidos, no momento em que o óvulo e o espermatozoide são fecundados.

É nesse momento que surge uma nova vida de um ser humano.

Portanto, todo tipo de aborto a partir desse ponto equivale a um assassinato e é errado.

Ele é problemático, pois a primeira premissa não pode ser considerada verdadeira ou aceitável, já que se trata de matéria de fé sobre a qual há amplo desacordo. Não dispomos de evidências amplamente aceitas que demonstrem que de fato é assim que acontece.

Note que a palavra “aceitável” não significa, nesse caso, uma premissa que é aceita por alguém. Uma pessoa religiosa provavelmente consideraria a premissa do argumento acima aceitável, mas a exigência aqui é maior.

A ideia de aceitável tem a ver com a premissa não ser alvo de disputa generalizada. É pacífico, por exemplo, que paracetamol contribui para reduzir a dor de cabeça, já o mesmo não pode ser dito quanto a causar câncer, ainda que algumas pessoas possam considerar aceitável pensar assim. Portanto, a primeira afirmação é “aceitável” no sentido relevante, enquanto a segunda não.

Premissas relevantes

Considere o exemplo abaixo:

Mereço um aumento de salário, pois se isso não acontecer vou ficar muito bravo e não queira saber do que sou capaz.

Suponha que é verdade que a pessoa do exemplo é brava e capaz de provocar danos graves. A premissa de seu argumento é, portanto, verdadeira. Isso torna seu argumento bom? Não, pois viola a segunda regra do bom argumento.

O problema aqui é a falta de relevância da premissa. Pouco importa se ele é ou não uma pessoa agressiva, isso não a torna mais ou menos merecedora de aumento salarial. O que realmente seria relevante nesse caso é se desempenha um bom trabalho ou não. O argumento abaixo não comete esse erro:

Nos últimos dois anos me qualifiquei para a função que desempenho e tenho demonstrado um ganho constante de produtividade, por isso mereço um aumento de salário.

O uso de premissas irrelevantes pode ocorrer de diferentes formas. Em todos os casos resultam em falácias de relevância como: apelo à autoridade irrelevantefalácia genéticaad hominementre outras.

Premissas suficientes

Considere o exemplo abaixo:

Tenho certeza que o candidato a presidente da república do PF, Partido das Falácias, vai ter a maioria dos votos. Fiz uma pesquisa com as pessoas que conheço e praticamente todas disseram que irão votar nele.

As premissas desse argumento trazem informações que são relevantes para mostrar que a conclusão é verdadeira, mas são insuficientes. O grupo de pessoas que conhecemos é uma amostra muito limitada para chegarmos a uma conclusão sobre como todo um país irá votar. Então, nesse caso, mesmo que a premissa seja verdadeira, o argumento não é bom por violar a terceira regra do bom argumento.

Já o argumento abaixo não comete o mesmo erro:

Foi feita uma pesquisa com 5000 pessoas de todo o Brasil sobre suas intenções de voto para Presidente da República. Dessas pessoas, 1500 disseram que votariam no candidato A e 3500 disseram que votariam no candidato B. Portanto, provavelmente o candidato B ganhará a eleição.

Se é verdade o que afirma as premissas do argumento e se esses dados foram coletados através de procedimento adequados (sem induzir as pessoas a escolher um ou outro candidato, por exemplo), podemos considerar esse um bom argumento. Sua conclusão tem grande chance de ser verdadeira, ao contrário da anterior.

O uso de informação insuficiente nas premissas também é um tipo de falácia muito comum que ocorre quando fazemos generalizações ou estabelecemos relações de causa e efeito. Essas falácias são chamadas de falácias indutivas e falácias causais.

Referências

Damer, T. Edward. Attacking faulty reasoning: a practical guide to fallacy-free arguments. California: Wadsworth Cengage Learning, 2009.

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