Ad hominem: o ataque pessoal como argumento

falácia ad hominem
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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
novembro 2019 - 5 min de leitura

Um argumento ad hominem ocorre quando uma ideia é posta em dúvida através de um ataque contra a pessoa que a defende. A expressão ad hominem vem do latim e quer dizer contra o homem.

Um exemplo comum desse argumento pode ser encontrado no debate sobre o aborto. Imagine o seguinte diálogo:

Marcos – Acredito que o aborto deveria ser proibido num feto com oito meses de gestação já que nesse período ele pode sentir dor.

Andreia – A sua opinião sobre o aborto não está correta, pois você é homem e não tem o direito de opinar sobre o assunto.

A Andreia poderia ter usado duas estratégias para criticar Marcos. Em primeiro lugar, poderia tentar mostrar que ele comete um erro em seu raciocínio ou que usa premissas falsas. Em segundo lugar, poderia atacá-lo lembrando características pessoais que tornem duvidoso seu argumento. Andreia optou pela última alternativa e, da forma como fez, cometeu uma falácia ad hominem.

Argumentos ad hominem nem sempre são falaciosos, mas na maioria dos casos sim.

O primeiro problema com esse tipo de argumento é que, ao invés de avaliar se a ideia é verdadeira ou não, se limita a atacar o caráter de seu autor. Isso é incorreto porque, na maior parte dos casos, características pessoais são irrelevantes para determinar se uma ideia é verdadeira ou falsa. A afirmação, por exemplo, de que o feto tem direito à vida não se torna mais ou menos verdadeira por ser defendida por pessoas de gêneros diferentes.

O segundo problema é que esse tipo de ataque procura silenciar a pessoa que está defendendo uma ideia, excluindo-a do debate. Ocorre que, quando estamos numa discussão, temos obrigação de explicar porque discordamos e não tentar silenciar aquele que pensa diferente.

Por fim, além de ser irrelevante para determinar o valor de verdade de uma ideia, um ataque pessoal pode ser problemático por desviar a atenção do que realmente importa.

Em campanhas políticas esse recurso é especialmente prejudicial e comum. Pois, se os candidatos se limitam a trocar ataques pessoais, o público fica sem conhecer suas propostas para solucionar os problemas da sociedade. O resultado pode ser a eleição de candidatos com um “bom caráter”, “cidadãos de bem” que não tem boas ideias para resolver questões que preocupam a população. Pior ainda, as propostas do candidato eleito podem até ser contrárias ao que a maioria pensa serem as políticas mais adequadas. Como se vê, a distração provocada pelas falácias ad hominem podem custar caro.

Tipos de falácias ad hominem

Ataques pessoais podem assumir quatro formas diferentes. Cada uma deles recebe um nome específico.

  • Ad hominem abusivoNesse caso, uma ideia é posta em dúvida através de um ataque direto às características individuais da pessoa. O argumento de Andreia acima é um exemplo dessa falácia.
  • Ad hominem circunstancial ou poço envenenado. Nesse caso, uma teoria é posta em dúvida através da alegação de que a pessoa a defende porque tem algo a ganhar com isso. Por exemplo: responder “você só defende isso porque terá lucro” para alguém que defende os direitos dos animais e é dono de um restaurante vegetariano
  • Tu quoque. Nesse caso, o ataque pessoal envolve acusar uma pessoa de hipocrisia ou incoerência, por não fazer o que defende. Por exemplo: responder “mas você fuma” contra alguém que defende que o cigarro faz mal para a saúde e é fumante.
  • Culpa por associação. Ocorre quando uma ideia é desacreditada por causa da existência de um associação entre seu autor e outra pessoa, instituição ou forma de pensar. Por exemplo: Johannes Kepler era astrólogo, portanto suas ideias sobre o movimento dos planetas devem estar erradas.
Ver também  Apelo ao povo ou argumentum ad populum

Como reconhecer quando é uma falácia

Embora ataques pessoais sejam uma das falácias mais usadas, é necessário lembrar que nem sempre são argumentos inválidos. Alguns são legítimos e é importante saber reconhece-los.

A principal questão que deve ser feita para identificar se um argumento ad hominem é relevante ou não é a seguinte:

No assunto que está sendo discutido, características pessoais fazem a diferença?

Suponha que o tema do debate seja se a Terra é plana ou esférica. Nesse caso, não é difícil perceber que, não importam as características pessoais dos debatedores, o formato da Terra é totalmente independente delas.

Por outro lado, o mesmo não pode ser dito se estivermos no tribunal tentando saber se uma testemunha é confiável ou não. Imagine que você faz parte do júri no caso de um assassinato. A acusação apresenta uma testemunha que diz ter visto o réu cometendo o crime. Já a defesa alega que a testemunha não é confiável, pois teve um conflito com o réu e mentiu no passado. Embora esse argumento seja claramente um ad hominem, ele é perfeitamente aceitável. Nesse caso o ad hominem é relevante porque o tema da discussão é justamente o caráter de uma pessoa: se ela é confiável ou não.

Portanto, é necessária cautela diante de um argumento ad hominem. É um erro descartar qualquer argumento desse tipo como uma falácia.

Referências e leitura adicional

Para conhecer mais, veja nossa lista de falácias com dezenas de textos didáticos abordando esse tema. Para uma análise mais aprofundada, sugerimos a leitura de Lógica Informal, um livro de Douglas Walton. Esse é o material mais abrangente em português sobre o assunto. Para mais referências, veja o artigo 7 Livros sobre Falácias.

Walton, Douglas N. Lógica Informal: manual de argumentação crítica. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

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