Argumento cosmológico

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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
25 de agosto de 2019 - 7 min leitura

Vários argumentos estreitamente relacionados para a existência de Deus baseiam-se na aparente necessidade de o universo como um todo ter uma causa. Parecem existir três possibilidades. Ou o universo começou a existir por si; ou existiu desde sempre; ou, então, foi trazido para a existência por alguma força ou ser extremamente poderoso. Geralmente, aqueles que acreditam em Deus acham incrível que o universo possa ter chegado à existência apenas por si e igualmente incrível que possa ter já existido durante uma quantidade infinita de tempo. Acreditam que um ser extremamente poderoso, Deus, o deve ter criado. Esta é uma das razões que as pessoas dão com mais frequência para acreditar em Deus.

Os argumentos que tentam provar que tem de haver um Deus porque tem de haver um criador do universo são chamados de provas cosmológicas da existência de Deus. Em geral são argumentos que tentam provar que tem de haver uma “primeira causa” de todo o universo — nomeadamente, Deus.

O Argumento da Primeira Causa

Os argumentos da primeira causa resultam das nossas observações quotidianas das causas que estão na origem das coisas ou acontecimentos. Observamos, por exemplo, que colocar açúcar no café causa a doçura do seu gosto, que colocar água na planta causa o seu crescimento e que riscar um fósforo na presença de oxigénio o faz pegar fogo. No entanto, parece impossível explicar a existência de tudo em termos de causa e efeito, porque isso significaria que deveria haver uma série infinita (ou sem fim) de causas, o que parece impossível.

Eis uma maneira pela qual estas ideias têm sido usadas para argumentar a favor da existência de Deus:

  1. Na vida de todos os dias, descobrimos que tanto os objetos como os acontecimentos são causados por outros (tal como o crescimento das plantas é provocado pela absorção de nutrientes).
  2. Mas uma série infinita de causas desse tipo é impossível porque então não haveria uma primeira causa, e, portanto, não haveria uma segunda, terceira, etc.
  3. ∴ Logo, tem de haver uma primeira causa: Deus.

Objeções ao argumento da Causa Primeira

Em termos aproximados, podemos dizer que um argumento só é conclusivo (deve persuadir-nos a aceitar a respectiva conclusão) se satisfizer duas condições:

  1. As suas premissas são aceitáveis ou estão justificadas.
  2. As suas premissas (justificadas) fornecem provas ou razões suficientes para justificar a aceitação da conclusão (neste caso o argumento é considerado válido).

Muitas pessoas que rejeitam o argumento da primeira causa acreditam que argumentos deste tipo (com frequência chamados de metafísicos) sofrem todos de um de dois defeitos: ou as suas premissas são tão inaceitáveis ou questionáveis quanto as suas conclusões; ou as respectivas conclusões não se seguem validamente das premissas. Por exemplo, uma objeção levantada contra o argumento da primeira causa é o de que a segunda premissa não é aceitável (quase todas as pessoas aceitam a sua primeira premissa). Os matemáticos em particular têm argumentado a favor da possibilidade de séries infinitas de eventos ou causas em termos técnicos e alguns filósofos têm aceitado o seu raciocínio.

Suponhamos, no entanto, que rejeitamos a ideia de que pode haver uma série infinita de causas, de tal modo que ambas as premissas do argumento da causa primeira se tornam aceitáveis. Apesar disso, o argumento não seria ainda válido e, portanto, a aceitação da sua conclusão também não se justificaria.

Em primeiro lugar, o argumento apenas provaria que cada série de causas tem uma causa primeira ou incausada, mas não prova que todas as causas sejam parte de uma série única de causas que tenha a única primeira causa, porque é possível que nem todas as causas sejam partes de uma série única de causas. Por outras palavras, o argumento provaria que há uma ou mais causas primeiras, mas não que exista apenas uma.

Em segundo lugar, apenas provaria, no melhor dos casos, que a primeira causa existe, não que essa primeira causa seja Deus. Em vez disso, a primeira causa poderia ter sido o Diabo (um candidato plausível, dada a natureza do universo). E mesmo que o argumento tivesse provado que a primeira causa tinha de ser um deus, não provaria que ele tivesse de ser o seu Deus (se for um crente) ou um deus que encaixasse na imagem comum que os cristãos, judeus ou muçulmanos têm de Deus. Poderia ser qualquer um dos milhares de deuses diferentes em que os seres humanos acreditam ou, talvez, um deus em que os seres humanos nunca tenham pensado. De fato, o argumento da primeira causa abre a possibilidade de que tenha existido um Deus que criou o universo (ou talvez muitos deuses), mas que agora Deus está morto.

Qual é a causa da existência de Deus?

Além das duas objeções que acabamos de levantar contra o argumento da primeira causa, há uma objeção geral a todas as espécies de provas cosmológicas da existência de Deus. Lembremos que a força do argumento cosmológico reside na ideia de que não é plausível pensar que o universo tenha começado a existir apenas por si mesmo. Por outras palavras, parece a muitos crentes que uma coisa tão grandiosa como o universo requer, como seu criador, um ser que seja pelo menos tão grandioso.

Mas esta linha de raciocínio põe-nos em apuros. Se um universo requer um deus para explicar a sua existência, o que explica a existência do próprio Deus? Da mesma maneira, ou Deus existiu desde sempre ou apenas apareceu ou então deve ter tido uma causa. No entanto, é tão implausível pensar que Deus sempre existiu ou que tenha simplesmente surgido, como pensar que também foi assim com o universo. O próprio raciocínio que nos leva a propor um deus como causa do universo deve levar-nos a propor um supradeus como causa de Deus. E, claro, o supradeus também precisa de uma causa, o suprasupradeus e assim infinitamente.

Portanto, sejam quais forem as voltas que dermos, o que obtemos no fim é igualmente implausível. É tão implausível um deus incausado como um universo incausado, e é tão incrível uma série infinita de causas como uma série infinita de deuses.

Em resumo, podemos questionar as provas cosmológicas da existência de Deus de, pelo menos, três maneiras importantes. Primeiro, podemos questionar a ideia de que uma série infinita de causas não seja possível. Segundo, podemos questionar a validade da conclusão de que há apenas uma primeira causa e de que a primeira causa seja Deus. Terceiro, podemos defender que qualquer deus proposto como primeira causa para explicar o universo precisa tanto de uma causa como o próprio universo e, assim, o argumento, se provar a existência de um deus, provará a existência de uma série infinita de deuses.

Texto traduzido de Kahane, Howard. Thinking About Basic Beliefs. Wadsworth, Belmont, 1983, pp. 3-7.

Tatim, William Godoy. Argumento cosmológico. Filosofia na Escola, 2019. Disponível em: < https://filosofianaescola.com/metafisica/argumento-cosmologico/>. Acesso em: 21 de Apr. de 2121.

This post has 2 Comments

  1. Rafael disse:

    Putz, quantas falhas nesse texto…

    O Argumento Cosmológico está mal formado. Ele deve ser:

    1. Tudo que começa a existir tem uma causa.
    2. O universo começou a existir.
    3. Logo o universo tem uma causa.

    Com relação ao segundo argumento: Quando você cita “alguns filósofos têm aceitado” o raciocínio matemático das séries infinitas, você não deixa claro que a maioria dos filósofos rejeita essa ideia, porque se o pra trás é infinito, o hoje nunca teria chegado (como você mesmo conclui em outro parágrafo).

    Com relação à relação dos argumentos, eles não precisam provar que todas as causas tem uma causa primeira. O que eles somados concluem é que se tudo que começou a existir tem uma causa e se o universo começou a existir, então o universo tem uma causa.

    O universo nesse argumento é definido como o espaço-tempo, com tudo material que existe. Para o universo ter então uma causa, ela teria que ser eterna e, consequentemente, não-causada. Teria que ser muito poderosa. E também teria que ser sem espaço, atemporal e imaterial.

    O conjunto de coisas imateriais que conhecemos são números abstratos ou nossa mente. Como os números abstratos por si só não causam nada, sobra a mente. Daí vem a conclusão que a causa do universo também é pessoal.

    Eterno, não causal, muito poderoso, sem espaço, atemporal, imaterial e pessoal… Deus

    A pergunta “Qual é a causa da existência de Deus” morre quando se coloca o argumento da forma correta. Tudo que “começou a existir tem uma causa”. Como Deus é eterno, ele não tem uma causa.

    Concluindo a partir do seu resumo:

    – “Podemos questionar a ideia de que uma série infinita de causas não seja possível”
    – A lógica, junto da maioria dos filósofos, conclui que não seria possível, já que nunca chegaríamos no HOJE.

    – “Podemos questionar a validade da conclusão de que há apenas uma primeira causa e de que a primeira causa seja Deus.”
    – A causa que está sendo buscada é a causa do início do Universo. Como mostrei acima, ela leva exatamente na direção do que conhecemos como Deus.

    – “Podemos defender que qualquer deus proposto como primeira causa para explicar o universo precisa tanto de uma causa como o próprio universo e, assim, o argumento, se provar a existência de um deus, provará a existência de uma série infinita de deuses.”
    – Com o argumento formatado da maneira correta, o Universo tem uma causa por não ser eterno. Deus, por ser eterno, não tem uma causa.

  2. HurDur disse:

    Além do que o Rafael citou, eu ainda acrescentaria que o autor mescla o argumento da contingência de Leibniz com o argumento cosmológico. Como já foi dito no outro comentário, o argumento cosmológico não afirma que ‘tudo que existe deve ter uma causa’ e sim que ‘tudo que começa a existir tem uma causa’. No argumento de Leibniz, no entanto, é proposto que tudo que existe tem uma explicação para sua existência, mas essa explicação pode residir tanto numa causa externa como na própria natureza da entidade em questão (como por exemplo números, que não são causados por nada mas existem necessariamente). Portanto, perguntar ‘Qual é a causa de Deus?’ não tem sentido algum.

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