O problema do mal

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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
Última atualização agosto 2019

O problema do mal (também conhecido como teodiceia) e uma das críticas mais antigas à existência de Deus como ser onipotente (que tudo pode) e benevolente (que é bom). Em linhas gerais, o argumento procura mostrar que a existência do mal no mundo não é compatível com a ideia de um Deus benevolente e onipotente.

O problema do mal

“Você não pensa em mudar seus planos?”, pergunta o anjo pra deus.

Algumas pessoas poderiam argumentar nesse sentido, que a existência de um tsunami, por exemplo, mostra que deus não existe ou ele não é bondoso ou onipotente.

Epicuro (341-270 a. C.) foi o primeiro a formular esse problema. De acordo com o filósofo grego, há quatro possibilidades:

  1. Ou Deus quer eliminar o mal do mundo, mas não pode;
  2. Ou pode mas não quer;
  3. Ou nem quer nem pode;
  4. Ou quer e pode.

Se deus quer, mas não pode, então ele não é onipotente. Ele é fraco, não pode fazer tudo e, portanto, não é um deus.

Se pode mas não quer, então ele é malvado. E novamente, isso não é algo que se esperaria de um deus.

Se ele nem quer e nem pode, é fraco e malvado. Novamente, não pode ser considerado um deus.

Por fim, se quer ou pode, podemos chama-lo de Deus. Ele é onipotente porque pode eliminar o mal e é benevolente porque quer eliminar o mal. Porém, sendo essa última possibilidade verdadeira, por que existe o mal no mundo? Por que ele ainda não eliminou o mal? Ou, sendo o criador de todas as coisas, por que permitiu que o mal existisse?

Assim, a única explicação, dada a existência do mal no mundo, é que deus não é benevolente e/ou onipotente. E, portanto, não existe como geralmente é pensado.

O livre-arbítrio como resposta ao problema do mal

Deus fez o mundo e isso foi muito bom. Uma parte indispensável da bondade que ele escolheu foi a existência de seres racionais: seres autoconscientes capazes de amor e pensamento abstrato, e com o poder de livre escolha entre cursos de ação alternativos contemplados. Essa última característica dos seres racionais, a livre escolha ou livre-arbítrio, é um bem.

Mas mesmo um ser onipresente é incapaz de controlar o exercício do poder de livre escolha, já que uma escolha que fosse controlada não seria ipso facto livre. Em outras palavras, se eu tenho uma livre es

Livre arbítrio

“Ei, não olhe pra mim – eu fui contra o livre-arbítrio!”, diz o anjo.

colha entre x e y, nem mesmo Deus pode garantir que vou escolher x.

Pedir a Deus que me dê livre escolha entre x e y e que garanta que eu escolha x em vez de y é pedir que Deus realize o intrinsecamente impossível: é como pedir a ele que crie um quadrado redondo, um ser material sem forma ou um objeto invisível que projete uma sombra.

Tendo esse poder de livre escolha, alguns ou todos os seres humanos o usaram mal e produziram uma certa quantidade de mal. Mas o livre-arbítrio é um bem suficientemente grande para que sua existência sobrepuje os males que têm resultado e que resultarão do seu abuso: e Deus previu isso.

Referência

Bruce, Michael; Barbone, Steven (Orgs). Os cem argumentos mais importantes da Filosofia Ocidental: uma introdução concisa sobre lógica, ética, metafísica, filosofia da religião, ciência, linguagem, epistemologia e muito mais. São Paulo: Cultrix, 2013.

Van Inwagen, Peter. The Problem of Evil. Oxford: Clarendon Press, 2006.