Ceticismo: significado e 6 argumentos céticos | Filosofia na Escola

Ceticismo: significado e 6 argumentos céticos

ceticismo

O ceticismo é uma concepção filosófica sobre o conhecimento humano que surgiu na Grécia Antiga por volta do século III a.C. A palavra “ceticismo” vem do grego sképsis que significa pesquisa ou investigação. O cético é aquele que evita tomar partido, sustentar uma opinião ou adotar uma crença. Opta sempre por manter a mente aberta, suspender o julgamento e continuar investigando.

Observe a imagem acima. Propositalmente ela não possui nenhuma legenda. Observe e se observe, analise os inúmeros julgamentos que possivelmente está fazendo sobre as pessoas, sua aparência, a vegetação, as armas (são armas?) etc.

Diante de uma imagem como essa, é possível dizer coisas como: as pessoas da foto são de uma tribo primitiva. Quem não pensaria isso? Esse é um tipo de julgamento. Tal pessoa pode ser chamada de “dogmática”, pois acredita saber algo sobre as pessoas na imagem.

Ao contrário, também poderíamos dizer, diante de uma foto como essa, que não é possível fazer qualquer tipo de julgamento. Ou seja, não podemos saber nada sobre essas pessoas a partir do que nos é mostrado na imagem. Embora não pareça, isso também é um tipo de julgamento: estamos julgando que nada pode ser conhecido. Tal atitude também poderia ser chamada de “dogmática”, pois, assim como no primeiro caso, resulta em uma crença sobre a imagem.

Por fim, podemos adotar o ideal cético e fazer a epoché, a única atitude não dogmática. Ou seja, não julgar, não pensar o que é ou não é a imagem, se ela pode ou não ser uma fonte de informação segura etc.

Esse é o sentido mais básico de ceticismo. O cético é o oposto do dogmático. O último sustenta uma crença determinada. O primeiro, mantém seu julgamento suspenso.

Porém, ao longo da história o ceticismo foi ganhando sentidos diferentes. Hoje, são chamados céticos os filósofos que acreditam que não podemos conhecer nada sobre o mundo a nossa volta. Essa forma de ceticismo surgiu na filosofia ainda na antiguidade e foi desenvolvida por Descartes (1596 – 1650). Esse filósofo não era um cético, mas desenvolveu ou dos argumentos céticos mais contundentes que conhecemos.

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O ceticismo pirrônico

Uma das vertentes do ceticismo antigo surge com Pirro de Élida (365 a.C. 270 a.C.) Porém Pirro não era exatamente um cético no sentido que o termo é usado hoje. O filósofo não escreveu nada. O que conhecemos sobre sua vida e pensamento vem de relatos de terceiros, que nos asseguram que Pirro era capaz de suspender o julgamento até nas situações mais improváveis e com isso atingiu um estado de tranquilidade sem igual.

Em uma das histórias sobre sua vida ficamos sabendo que o filósofo permaneceu tranquilo em um navio durante uma tempestade que ameaçava matar todos os tripulantes afogados.

Você deve estar se perguntando, o que faz um cético acreditar que não podemos conhecer nada sobre o mundo que nos cerca? Ainda na antiguidade, vários filósofos céticos propuseram uma série de argumentos destinados a mostrar que nunca podemos estar totalmente certos sobre aquilo que pensamos.

Argumentos céticos

1. A variedade dos animais

O primeiro argumento que leva os céticos a suspenderem o juízo é a diversidade dos animais e seus órgãos perceptivos. Um cachorro tem o olfato muito mais avançado que o nosso. Um morcego é capaz de se localizar usando o som. Uma águia é capaz de observar sua presa de longas distâncias.

Como será é o mundo para esses animais? Quando olham para uma maçã, por exemplo, o que veem? Não temos como saber. Porém, é certo que a mesma maçã, que parece possuir uma forma, cor, cheiro, sabor, textura para nós, terá características diferentes para uma vaca, cachorro ou morcego.

Disso devemos concluir que o mundo não é realmente como observamos, mas um mundo que nossos sentidos percebem. Se tivéssemos outros sentidos, percebemos um mundo diferente. Podemos falar de como os objetos se parecem para nós, mas não do que realmente são.

2. Estados

Nosso conhecimento do mundo também é afetado por nossos estados internos e externos. E nesse aspecto as variações são inúmeras: alegria e tristeza, amor e ódio, loucura e sanidade, alucinação ou ausência dela, estar bêbado ou sóbrio, com medo ou tranquilo, estar sentindo prazer ou desconforto, ser jovem ou velho.

Basta pensarmos um pouco em nossa própria experiência para nos darmos conta de como esses estados influenciam nossa percepção do mundo. Achamos uma pessoa mais atraente e bonita quando estamos apaixonados. A mesma comida é mais saborosa quando estamos com fome. O que é vergonhoso quando estamos sóbrios poderá não ser se estivermos bêbados.

Porém, nossos estados internos também afetam a maneira como percebemos a realidade de formas normalmente insuspeitadas. A insegurança, por exemplo, torna as pessoas mais ansiosas e a ansiedade está ligada ao pensamento mágico. Um estudo mostrou que alunos ansiosos do primeiro ano de MBA estão mais sujeitos a pensamentos conspiratórios que seus colegas mais seguros do segundo ano.

A fome também tem a capacidade de alterar a percepção. Um estudo de 1942 descobriu que quando imagens ambíguas são exibidas a pessoas famintas e a saciadas, as primeiras têm maior probabilidade de enxergar comida. A pobreza, por outro lado, também pode provocar mudanças de percepção. Em um experimento, crianças de bairros pobres e famílias da classe trabalhadora tendem a fazer avaliações exageradas do tamanho de moedas comparadas com as avaliações das crianças de bairros e famílias ricas.

Esses são alguns poucos exemplos de como o que pensamos saber sobre o mundo é afetado pelo estado no qual nos encontramos. Como sempre nos encontramos em estado determinado, nossa percepção do mundo é sempre influenciada por esse. Assim, o mundo que conhecemos é sempre alterado e produzido por nossos estados.

3. Posições, distâncias e lugares

Também temos que considerar estados de nosso corpo: se estamos longe ou perto, de que ângulo observamos um objeto. Tudo isso faz com aquilo que observamos seja diferente daquilo que é observado por outra pessoa, ou por nós mesmos em momentos diferentes.

Um objeto parece grande quando estamos perto e pequeno quando estamos longe, de modo que uma estrela é menor que uma laranja. O remo parece quebrado quando está dentro da água e reto quando fora.

O ângulo e direção na qual olhamos também afeta nossa percepção, como mostram as figuras ambíguas.

Imagem ambígua da velha e a jovem

Dependendo do lugar da imagem em que presta atenção, verá o rosto de uma mulher jovem ou de uma mulher velha.

Essa é uma imagem ambígua que pode ser vista como uma pessoa jovem ou velha, dependendo da maneira como olhamos.

4. A diversidade cultural

Os seres humanos criam costumes, leis, crenças míticas e religiosas muito diferentes. Para mostrar isso, os céticos nos lembram que em alguns lugares é comum que as pessoas comam seus pais depois de mortos, em outros queimem, em outros enterrem, em outros coloquem em pântanos etc. Em alguns locais é natural fazer sexo em público, em outros não. Em algumas culturas as pessoas usam roupas coloridas e em grande quantidade, em outras as roupas são poucas com apenas uma cor.

Diante disso, algumas pessoas se apegam aos seus costumes e dizem que são mais corretos que os demais. Um cético, por outro lado, vê nisso mais uma razão evitar fazer julgamento sobre o que é certo ou errado, bom ou mau.

5. Divergência

Pense na coisa mais absurda que você já ouviu. Embora pareça absurda, certamente existe uma pessoa que estaria disposta a defender essa ideia. A coisa mais generalizada entre os seres humanos é a divergência.

E essa divergência não ocorre apenas entre pessoas que não receberam uma educação formal. Mesmo entre especialistas, em todos os campos, da filosofia, passando pela ciência e até na matemática, o conflito de opiniões é o normal.

Portanto, se as pessoas discordam, mesmo os especialistas e pessoas sensatas, o mais correto é evitar tomar uma posição, suspender o julgamento.

6.  Regressão ao infinito

Para termos conhecimento de algo, precisamos ser capazes de oferecer razões que justifiquem nossa crença. Porém, a justificativa que oferecemos também é uma crença para a qual precisamos oferecer razões que a justifiquem e assim ao infinito.

Imagine que você está defendendo que alienígenas existem. Ao lhe perguntarem o que o faz acreditar nisso, responde que observou alguns no pátio de sua casa outro dia. Você usou uma crença (tinha alienígenas no pátio da minha casa) para justificar outra crença (alienígenas existem). Agora, para que você saiba que alienígenas existem, terá que justificar a crença de que eles estavam em seu pátio. Irá usar uma terceira crença para fazer isso, que por sua vez exigirá uma quarta, quinta e assim ao infinito.

Um cético concluiria disso que crença alguma pode ser justificada e que, portanto, o mais adequado é, novamente, suspender o juízo.

O ceticismo de Descartes

Uma das formas de ceticismo mais radicais já vistas na filosofia foi desenvolvida pelo filósofo René Descartes (1596-1650). Em um livro chamado Meditações Metafísicas, apresentou um argumento cético que até hoje gera discussão.

Descartes não era um cético. Ao contrário, sua filosofia procura provar inclusive a existência de Deus. Porém, no período em que viveu os alguns livros dos céticos antigos começaram a ser traduzidos e as pessoas passaram a tomar conhecimento dessas ideias.

Para criticar de uma vez todo tipo de argumento cético, Descartes resolveu levar o ceticismo ao seu extremo e mostrar como ele é falho.

Para isso, apresentou a hipótese do gênio maligno. Você pensa que existem algumas crenças que são difíceis de contestar. Mesmo o maior dos céticos não poderia negar que podemos saber isso. Por exemplo, que dois mais dois é quatro ou que existe diante de você um texto o qual está lendo. Como não acreditar nisso?

Descartes pensava que nem disso poderíamos estar certos. E se, pensou, existisse um gênio maligno, um deus todo poderoso e muito malvado que a todo momento nos engana? Penso estar diante de um texto. Mas e se isso for uma ilusão criada por esse deus que tudo é capaz? Todo o mundo a nossa volta o mesmo o resultado de cálculos matemáticos podem muito bem ser invenções desse gênio.Com o desenvolvimento dos computadores, novas hipóteses surgiram. O filme Matrix explorou a ideia de que nossos cérebros são mantidos em tanques por robôs e nossa vida é completamente simulada em computadores.

Referências consultadas

Empiricus, Sextus. Outlines of scepticism. Cambridge University Press: New York, 2007.

Shermer, Michael. Cérebro e crença. São Paulo: JSN Editora, 2012.

Vogt, Katja, “Ancient Skepticism”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2018 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = <https://plato.stanford.edu/archives/fall2018/entries/skepticism-ancient/>.

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