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Teoria do humor como alívio

Você já se pegou rindo de uma situação que, na verdade, era meio pesada ou até desconfortável? Como quando alguém faz piada sobre um tema sério, como a morte, a doença e, mesmo assim, a sala inteira cai na risada?

Por que isso acontece? O que há por trás desse riso inesperado?

Alguns filósofos responderam que rimos porque nos sentimos superiores, como vimos com Hobbes. Mas outro caminho foi seguido por Sigmund Freud, fundador da psicanálise. Para ele, o humor não revela um sentimento de superioridade, mas sim uma tensão interna sendo descarregada. Em vez de mostrar que estamos acima dos outros, o riso nos ajuda a aliviar pressões emocionais que estavam guardadas.

Mas que tipo de tensões são essas?

O inconsciente e a vida escondida da mente

Freud acreditava que nem tudo o que pensamos e sentimos está claro para nós. Na verdade, uma parte muito importante da nossa mente funciona de maneira oculta. É o que ele chamou de inconsciente.

O inconsciente guarda desejos, lembranças, medos e impulsos que, por algum motivo, nós não deixamos vir à tona. Às vezes porque são mal vistos pela sociedade, às vezes porque causariam vergonha ou culpa. Por isso, ao longo da vida, aprendemos a reprimir certos pensamentos e emoções. Isso quer dizer que os empurramos para dentro, como se estivéssemos escondendo algo de nós mesmos.

Mas isso não significa que eles desaparecem. Pelo contrário: esses conteúdos reprimidos continuam vivos e buscam alguma forma de se expressar. Segundo Freud, eles escapam disfarçados nos sonhos, nos lapsos de linguagem, em certos comportamentos e também no humor.

O humor como forma de liberar afetos reprimidos

Quando rimos, não estamos apenas reagindo a algo engraçado. Muitas vezes, o riso surge como uma maneira de liberar sentimentos que estavam contidos, como raiva, medo ou vergonha. É como se o humor abrisse uma brecha por onde esses afetos pudessem escapar — de um jeito mais leve, mais aceitável socialmente.

Pense numa situação simples: você não gosta de uma pessoa. Ela te irrita, você sente raiva dela, mas sabe que não pode bater nela ou xingá-la diretamente. Isso não seria bem-visto e poderia causar problemas ou parecer exagerado. Mas e se você faz uma piada sobre ela? E se essa piada é contada para outras pessoas que também não gostam dela, e todos riem?

Freud diria que, nesse momento, o riso cumpre uma função: em vez de agredir fisicamente, você libera aquela agressividade por meio do humor. A piada vira uma forma socialmente permitida de expressar um sentimento reprimido. O afeto — a raiva — é descarregado, e o corpo responde com o riso. É por isso que, muitas vezes, rimos mais de quem não gostamos do que de quem gostamos.

Quando o riso desvia o afeto

Outro tipo de funcionamento do humor também foi analisado por Freud. É o caso em que estamos prestes a sentir uma emoção forte, como pena ou compaixão, mas, de repente, essa emoção é desviada por uma surpresa, e o que sai é o riso.

Para ilustrar esse funcionamento do humor, Freud cita uma pequena história contada pelo escritor americano Mark Twain sobre um episódio envolvendo seu irmão. A cena é a seguinte.

O irmão de Twain estava trabalhando na construção de uma estrada quando uma carga de dinamite explodiu acidentalmente. A explosão foi tão forte que o arremessou para longe, voando pelos ares. Depois de cair em segurança, e provavelmente ainda em choque, ele foi punido com o desconto de metade do salário diário por “estar ausente do seu posto de trabalho”.

Mas qual é a graça?

A história parece trágica: uma explosão, um acidente de trabalho, risco de morte. Tudo nos prepara para sentir pena ou preocupação com a vítima. No entanto, o desfecho é inesperado e absurdo: em vez de assistência ou cuidado, ele recebe uma punição por "faltar" ao trabalho — como se tivesse simplesmente saído para tomar um café.

Esse contraste desarma a emoção inicial. A energia que começava a se organizar para sentir compaixão não encontra mais motivo para continuar crescendo. E o que acontece? Essa energia emocional “sobra”, fica sem destino e o riso entra como uma forma de descarregá-la.

Freud acreditava que é exatamente esse desvio de afeto que provoca o riso: íamos sentir uma coisa, mas a situação muda tão rapidamente que aquele sentimento se transforma em outro. Ao invés de chorar, rimos. O humor, nesse caso, serve para lidar com a frustração súbita de um sentimento que não pode mais se realizar.

A teoria do humor proposta por Freud nos mostra que o riso pode ter uma função muito mais profunda do que parece. Quando rimos, muitas vezes estamos lidando com sentimentos que foram reprimidos, como raiva, medo ou compaixão, e que encontram no humor uma forma segura de se expressar. Piadas, anedotas ou situações inesperadas criam um espaço onde emoções intensas podem ser descarregadas sem causar conflito direto. Ao entender o humor dessa forma, passamos a ver o riso não apenas como diversão, mas como uma resposta emocional complexa, ligada ao modo como nossa mente tenta equilibrar aquilo que sente e aquilo que pode mostrar.

Referência

MORREALL, John. Philosophy of Humor. In: ZALTA, Edward N.; NODELMAN, Uri (eds.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: https://plato.stanford.edu/archives/fall2024/entries/humor/. Acesso em: 7 ago. 2025.