Você já viu alguém tropeçar na rua e, em vez de se preocupar, deu risada? Ou já esteve com um grupo de amigos na escola e todos começaram a fazer piadas com um colega que fala de um jeito diferente ou tinha um estilo “estranho”? Talvez você tenha até rido junto, mesmo sem saber bem o porquê.
O que há nesse tipo de riso? Ele é só uma forma de distração ou revela algo mais profundo sobre como nos relacionamos com os outros?
Desde a Antiguidade, filósofos tentam entender o que é o humor e por que ele nos provoca riso. Uma das explicações mais antigas é a chamada teoria da superioridade no humor. Segundo ela, o riso surge quando percebemos alguma falha, defeito ou erro nos outros e, com isso, sentimos que estamos em uma posição superior.
O filósofo inglês Thomas Hobbes é um dos principais nomes ligados a essa teoria. Ele escreveu que o riso é fruto de uma sensação súbita de glória, quando nos comparamos a alguém que parece inferior. Em suas palavras:
“Glória repentina é a paixão que produz aquelas caretas chamadas risos; e é causada ou por algum ato repentino próprio que os agrada; ou pela apreensão de algo deformado em outrem, em comparação com o qual subitamente se aplaudem.”
A ideia de que rimos ao nos sentirmos superiores a alguém pode parecer estranha à primeira vista. Afinal, não rimos também com os amigos, em situações leves e alegres? Sim, é verdade. Mas Hobbes estava interessado em outro tipo de riso: aquele que surge quando vemos alguém falhar, tropeçar, cometer um erro ou revelar uma fraqueza.
Para ele, esse riso não é simplesmente uma reação inocente. Ele revela um sentimento de comparação. Nós rimos porque, por um instante, sentimos que estamos em vantagem — seja física, social ou intelectual — em relação à outra pessoa. É isso que Hobbes chama de uma “glória súbita”.
Imagine alguém escorregando em público. O riso não surge apenas da surpresa da cena, mas da sensação de que nós, que não escorregamos, estamos “melhores” do que quem caiu. Ou pense em um colega que pronuncia uma palavra errada e a turma toda começa a rir. O riso, nesse caso, é também um gesto de exclusão — alguém errou, e os outros se sentem “certos” e melhores do que o outro.
No século XVII, Hobbes observava que as pessoas riam de quem tinha defeitos físicos visíveis, como coxear, ser muito alto ou muito baixo, ou ter cicatrizes no rosto. Também riam de erros públicos, gafes ou formas “inadequadas” de se comportar em sociedade. Para ele, tudo isso alimentava o sentimento de superioridade que dá origem ao riso.
O riso e a natureza humana
Para entender melhor essa teoria de Hobbes, é importante considerar o modo como ele enxergava a natureza humana. O filósofo acreditava que os seres humanos vivem em constante competição — por poder, reconhecimento, prestígio. Segundo ele, temos uma tendência natural a buscar vantagem sobre os outros. Em seu livro mais famoso, Leviatã, descreveu essa condição como um estado de guerra de “todos contra todos”, em que cada um luta para manter sua posição e sobreviver.
Nesse contexto, o riso não é apenas uma reação leve ou espontânea. Ele pode ser visto como um sinal dessa luta simbólica por superioridade. Quando rimos de alguém que tropeça ou comete um erro, estamos, mesmo sem perceber, reafirmando nossa própria posição no grupo: “eu sou melhor”, “eu sou mais esperto”. Essa breve sensação de vantagem é o que Hobbes chama de “glória súbita”.
Por isso, o humor por superioridade está ligado à vaidade — uma característica que Hobbes via como natural no ser humano. Queremos ser reconhecidos, queremos nos destacar, e às vezes fazemos isso às custas dos outros. O riso, nesse caso, se torna uma forma disfarçada de agressão: ele pode ridicularizar, rebaixar, ou colocar o outro em uma posição de vergonha.
Essa visão nos ajuda a entender por que o riso, mesmo parecendo inofensivo, pode também ter um lado sombrio. Quando ele se baseia na exclusão ou no desprezo, está revelando mais sobre nossos desejos de autoafirmação do que sobre a graça da situação.
O humor com grupos marginalizados
Até aqui vimos que o riso pode surgir de um sentimento de superioridade diante do erro, da falha ou da fragilidade de outra pessoa. Mas será que essa lógica vale só para situações individuais? Ou será que ela também se aplica a como tratamos certos grupos na sociedade?
Pense em como, muitas vezes, piadas são feitas com grupos marginalizados. Pessoas pobres, imigrantes, pessoas negras, LGBTQIA+, pessoas com deficiência. Por que esses grupos frequentemente são alvos de piadas?
Uma possibilidade é que, como essas pessoas são vistas como diferentes, muitos não se sentem ligados a elas. Não têm convivência, não compartilham experiências, não criam empatia. E quando não há proximidade, fica mais fácil rir sem perceber os danos que são causados a essas pessoas. Se a gente não sente que aquilo nos afeta diretamente, a piada “passa”.
Mas o que esse riso revela? Talvez algo muito parecido com o que Hobbes já dizia. Quando rimos de alguém que achamos inferior, estamos reafirmando nossa própria posição. E, quando rimos juntos, isso cria uma espécie de laço dentro do grupo que ri. A piada não só expulsa o outro, mas fortalece quem está dentro.
É como se o grupo dissesse: “nós somos os normais, os certos, os aceitáveis. Eles são os diferentes, os estranhos, os engraçados.” O humor, nesse caso, serve como uma ferramenta para reforçar barreiras.
Esse tipo de riso pode parecer leve ou inofensivo, mas carrega uma mensagem importante: quem é visto como inferior pode virar motivo de graça. E quem ri se sente, ainda que por um instante, em uma posição mais confortável, mais segura e mais “acima” na escala social.
Referência
MORREALL, John. Philosophy of Humor. In: ZALTA, Edward N.; NODELMAN, Uri (eds.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: https://plato.stanford.edu/archives/fall2024/entries/humor/. Acesso em: 7 ago. 2025.