Os efeitos da avaliação formativa e somativa na motivação e qualidade do trabalho dos estudantes

Os efeitos da avaliação formativa e somativa na motivação e qualidade do trabalho dos estudantes

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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
abril 28, 2020 - 9 min leitura

Jussara, uma professora de biologia de ensino médio, conclui sua última aula sobre a estrutura do DNA avisando que na aula seguinte haverá uma prova. Passa uma lista de tópicos no quadro que serão abordados na prova e insiste com os alunos que estudem a partir do material que receberam nas aulas e no livro didático. A prova será individual, incluirá questões dissertativas e de múltipla escolha e será sem consulta. No dia da prova, todos os aluno sentam enfileirados e guardam tudo o que poderia ser utilizado como cola. Há um silêncio como nunca se viu antes na turma. Ao final do tempo especificado para a realização da avaliação, todos entregam e aguardam ansiosos o resultado.

Jussara corrige todas as avaliações e atribui uma nota de acordo com o número de acertos de cada aluno. Ela adicionar comentários e toma o cuidado para não privilegiar injustamente alguns alunos.

Na aula seguinte, devolve as provas. Nesse momento, aproveita para corrigir rapidamente a avaliação com os alunos e, assim, revisar todo o conteúdo e esclarecer dúvidas. Insiste na importância da revisão, sobretudo para aqueles alunos que não atingiram a média, final correm o risco de serem reprovados..

O tipo de avaliação utilizado pela nossa professora imaginária é chamada de avaliação somativa ou classificatória, ou seja, uma avaliação que possui nota e é usada para tomar decisões sobre aprovação dos alunos. Há vários aspectos desse esquema de avaliação que poderíamos questionar. Mas vamos nos deter aqui a apenas um.

Muitos professores utilizam avaliação somativa porque acreditam que, se não a única, essa é uma das principais formas de motivar os alunos a aprender, sobretudo aqueles que não se saem muito bem. Não fossem as provas, notas e o perigo da reprovação os estudantes não estudariam e, assim, dificilmente aprenderiam alguma coisa. As notas funcionam nesse caso como uma espécie de estímulo negativo ou positivo. Notas altas funcionam como uma recompensa, sobretudo no caso em que são publicadas em um local em que todos possam ver e se comparar com os colegas. Notas baixas, por outro lado, servem como uma punição, já que estão associadas à reprovação e ao fracasso diante de colegas, pais e professores. Tratam-se de técnicas de uma espécie de behaviorismo popular que estão presentes em uma série de práticas sociais, em escolas, no trabalho, na educação dos filhos, entre outras.

Estudo de Ruth Butler

Mas até que ponto a afirmação de que notas motivam os alunos a aprender é verdadeira? E, além disso, qual a qualidade do estudo de um aluno motivado dessa maneira?

Um estudo realizado por Ruth Butler em 1988 chegou a algumas conclusões relevantes para refletirmos sobre essas questões. A pesquisa foi relatada em um artigo chamado Enhancing and undermining intrinsic motivation: the effects of task-involving and ego-involving evaluation on interest and performance. A autora selecionou aleatoriamente 132 alunos, de quatro escolas diferentes. Dividiu o total de alunos em três grupos. Cada um dos grupos foi dividido entre estudantes com baixo e alto desempenho e submetido a um tipo de avaliação. Um grupo recebeu apenas notas como avaliação, outro comentários descritivos e o último grupo recebeu ambos. Notas fazem parte daquilo que chamamos de avaliação somativa e os comentários, por outro lado, são a principal característica de avaliações formativas. 

Organização do estudo

O objetivo do estudo era comparar a motivação dos estudantes nessas três condições. O experimento foi realizado em três seções. Em cada uma das seções os estudantes eram convidados a realizar algum tipo de tarefa e em seguida responder um questionário sobre seu grau de interesse na atividade. 

O experimento em três seções da seguinte forma:

  1. Primeira: os estudantes realizam uma tarefa.
  2. Segunda: dois dias depois, os estudantes receberam a tarefa anterior avaliada com uma nota, um comentário ou ambos. Depois de observarem sua avaliação, realizaram outra tarefa, agora sabendo que seriam avaliados.
  3. Terceira: três horas depois, os estudantes receberam a tarefa anterior avaliada. Em seguida, foi solicitada uma última tarefa, que não seria avaliada.

Depois de realizado o experimento, Ruth Butler comparou a motivação e a qualidade do trabalho realizado por cada um dos grupos. Qual o resultado? Qual dos grupos experimentais se sai melhor nesses critérios?

Efeito da avaliação na motivação e desempenho

A conclusão da pesquisa mostrou que, por um lado, no grupo que recebeu comentários como avaliação, alunos com baixo e alto desempenho mantiveram sua motivação inicial ao longo das várias seções do experimento. Por outro lado, o grupo que recebeu apenas notas ou notas acompanhadas de comentários apresentou um resultado oposto: a motivação inicial diminuiu. 

Porém, isso não aconteceu com todos os estudantes, em todas as situações. Alunos que tinham um alto desempenho se mostravam motivados naquelas tarefas em que previam receber notas. Porém, na última atividade do experimento, na qual não receberiam notas, tiveram uma motivação menor. Já os alunos com baixo desempenho se mostraram menos motivados naquelas tarefas para as quais antecipavam uma nota. Como previam um resultado ruim, não demonstravam interesse na tarefa.

Um detalhe importante é que o grupo que recebeu notas acompanhadas de comentários não apresentou diferenças significativas em relação ao grupo que recebeu apenas notas. De fato, a pesquisa sugere que adicionar um comentário à nota é mais prejudicial do que apenas nota. Uma das explicações para esse fenômeno é o fato de que os comentários são ignorados ou vistos como uma justificação para a nota recebida. A pesquisa mostrou que, quando requisitados a lembrar do comentário ou nota recebida na segunda seção, os alunos que recebiam notas e comentários recordavam sobretudo a nota e eram menos capazes de lembrar o comentário do que o grupo que recebeu apenas comentários.

A pesquisa também constatou que o tipo de avaliação utilizada tem um impacto significativo no desempenho dos estudantes. Alunos que receberam comentário na primeira seção melhoraram seu resultado na terceira seção, justamente naquelas tarefas para as quais receberam comentários sobre como melhorar. Esse também foi o resultado entre estudantes de alto desempenho que receberam apenas notas ou notas seguidas de comentários. Mas é importante fazer uma ressalva. Em cada uma das seções uma das tarefas era aberta, exigia mais reflexão e criatividade. Nesse caso, os alunos que esperavam receber uma nota tiveram um resultado pior do que aqueles que esperavam apenas um comentário. De fato, seu desempenho, nesse caso, foi inferior ao dos alunos com baixo desempenho do grupo que recebeu apenas comentários.

Uma avaliação que usa notas ou outro tipo de recompensa ou punição promove uma preocupação com a própria imagem e status (aquilo que Butler chama de ego-involving) ao invés de direcionar a atenção dos alunos para a tarefa e ser realizada e como melhorá-la (task-involving). Essa é uma das razões pelas quais alunos que têm baixo desempenho tem resultados insatisfatórios quando avaliados através de notas. Numa avaliação somativa há uma espécie de competição entre estudantes pelos melhores resultados. Trata-se de uma espécie de jogo competitivo e como alguns alunos são capazes de antecipar seus resultados insatisfatórios, é natural que não se sintam particularmente motivados a participar.

Mas esse não é o único efeito prejudicial para a motivação. De fato, mesmo alunos com alto desempenho são prejudicados. Butler também constatou que alunos com alto desempenho do grupo que recebeu notas ou notas mais comentários apresentou uma redução de interesse na tarefa da última seção. O motivo disso é o fato de que nessa seção não receberiam qualquer tipo de avaliação. Esse mesmo fenômeno não foi verificado no grupo que recebeu apenas comentários. De alguma forma, o uso de notas como recompensa para o trabalho fez com que esse trabalho perdesse seu valor quando as notas deixaram de ser oferecidas.

Por outro lado, uma simples nota não auxilia o estudante a aprender. Não diz o que erro e o que fazer para melhorar. Comentários, por outro lado, oferecem um auxílio útil capaz de melhorar significativamente a aprendizagem, como demonstra esse experimento de Butler.

Em resumo, comentários relacionados à tarefa tem um duplo efeito positivo, mantendo a motivação inicial do aluno e contribuindo para um melhor desempenho. E isso de maneira geral, tanto para alunos com baixo desempenho quanto para alunos com alto desempenho. Notas, por outro lado, geram um efeito negativo na motivação daqueles alunos que têm baixo desempenho, além de contribuírem para a redução da qualidade do trabalho realizado. Além disso, a utilização de notas faz que os alunos percam o interesse inicial que possuíam em uma tarefa quando deixarem de ser avaliados dessa maneira. Todos os professores já ouviram de seus alunos “isso que você está dizendo cai na prova?” Trata-se de uma afirmação que mostra que a única motivação dos alunos para aprender, em alguns casos, é a nota. A pesquisa apresentada sugere que esse é um efeito do processo de escolarização centrado num tipo de avaliação somativa e classificatória. O uso de recompensas para a realização de uma tarefa reduz o interesse inicial que uma pessoa possui em realizá-la.

Voltado a nossa questão inicial, até que ponto a afirmação de que notas motivam os alunos a aprender é verdadeira? Depois de conhecer os resultados de experimentos como o de Butler, sou obrigado a pensar que, no mínimo, temos que usar isso com muita cautela, de forma provisória e pensar seriamente em alternativas para motivar a aprendizagem. Afinal, talvez as notas estejam gerando mais problemas do que soluções.

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