Rubricas de avaliação

Rubricas de avaliação

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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
maio 2, 2020 - 10 min leitura

A avaliação é parte fundamental do trabalho do professor. Se estou aprendendo a escrever uma dissertação, por exemplo, é necessário que o professor observe um trabalho que realizei e me diga se estou fazendo corretamente ou não. Mais importante ainda, é necessário que ele aponte o que está correto e o que não está, diga como poderia melhorar o trabalho e dê oportunidade para refazer.

Se o objetivo da avaliação é contribuir para que o aluno aprenda, esse seria o formato ideal. Na prática, as avaliações que oferecemos como professores estão distantes desse ideal. Muitas vezes, os trabalhos possuem apenas uma nota, sem maiores comentários, o que proporciona poucas informações para o estudante saber o que está correto ou não no trabalho.

O questão é como fazer para proporcionar avaliações significativas quando se trabalha com muitos alunos. É impossível avaliar uma produção escrita de 100 alunos e incluir comentários em todos, por exemplo. 

É pensando numa solução para esse problema que foram criadas as rubricas de avaliação. Elas são instrumentos de avaliação que listam os elementos do trabalho que serão avaliados e estabelecem níveis satisfatórios e insatisfatórios de desempenho. As rubricas podem ser usadas para avaliar qualquer tipo de trabalho, como pesquisas, trabalhos em grupo, apresentações, resenhas, portfólios, debates, produção de podcasts, vídeos etc. Através delas é possível, rapidamente, oferecer informações sobre um trabalho de modo que seu autor saberá exatamente o que deve melhorar e o que está adequado.

Exemplo de rubricas

As rubricas são usadas em uma variedade de contextos. Talvez o exemplo mais conhecido seja a rubrica usada para avaliar a redação do ENEM. Esse rubrica apresenta 5 dimensões ou competências nas quais a dissertação é avaliada.

Em cada uma dessas competências há seis níveis de desempenho e cada um corresponde uma nota. Assim, se a redação tiver no nível 1, ganhará 0 naquela competência. Se tiver no nível 6, ganhará 200.

A rubrica de avaliação da redação do ENEM é bastante complexa, dada a quantidade de níveis e competências. No entanto, rubricas podem ser bem mais simples. Inclusive recomendamos que as primeiras que fizer sejam menos complexas, com três níveis de desempenho, por exemplo, e 3 ou 4 dimensões.

O exemplo abaixo é uma rubrica para avaliar uma apresentação oral de trabalhos. Ela define 4 critérios nos quais o trabalho será avaliado e estabelece 3 níveis de desempenho. 

Na rubrica acima não incluímos uma pontuação associada aos níveis de desempenho. Fazer isso é relativamente fácil e não é um elemento essencial de uma rubrica de avaliação. Fica a critério do professor decidir o que é mais adequado. Ao fazer isso, além de questões burocráticas, leve em consideração o que dizem estudos sobre os efeitos de comentário e notas no desempenho e motivação dos estudantes.

Quais os benefícios de usar rubricas de avaliação?

Há vários benefícios em usar uma rubrica de avaliação. Entre eles:

  1. Qualidade do feedback disponibilizado para o estudante. Imagine um estudante que recebe apenas um nota em sua redação do ENEM e um que recebe um rubrica detalhando quantos pontos fez em cada uma das cinco competências. O primeiro não saberá nada sobre o que melhorar no próximo. O segundo, irá observar, por exemplo, que está no nível máximo e 3 das cinco competências, no mínimo em uma e intermediário na última. A partir disso, sabe exatamente onde deve melhorar para elevar sua nota. 
  2. Você não precisa repetir os mesmo comentários em dezenas de trabalho. Muitas vezes os erros cometidos pelos estudantes são bastante semelhantes. Sem uma rubrica, teria que escrever um comentário em cada trabalho. Com uma rubrica, basta assinalar o nível que o estudante atingiu. 
  3. As rubricas aceleram o processo de avaliação. É mais rápido avaliar usando rubricas, porque evita a necessidade de comentários repetitivos. Você terá o trabalho inicial de elaborar rubricas, mas depois elas podem ser aprimoradas e reaproveitadas em uma série de situações. Você pode usar ferramentas digitais para criação dessas rubricas, o que acelera mais ainda o processo e evita desperdício de papel, gasto com impressão, agiliza as devolutivas etc. Ao final desse artigo apresentamos uma ferramenta para fazer isso.
  4. Garante certa uniformidade e objetividade na avaliação. Atribuir notas sem critérios claros dá margem para todo tipo de arbitrariedade. Com a criação da rubrica, o processo de avaliação se torna mais transparente e o aluno compreenderá com mais facilidade o porquê de sua nota.
  5. Comunicação das expectativas com o trabalho. Para um trabalho bem realizado, os estudantes devem ter clareza sobre o que devem fazer. A rubrica, além de instrumento de avaliação, serve para deixar claro quais as características o trabalho deve possuir para ser adequado. Ao fazer, permite que o estudante faça uma autoavaliação permanente de seu trabalho e seja mais autônomo no processo de aprendizagem

As rubrica de avaliação estão de acordo com o que se espera da educação para o século XXI, são amplamente usadas em modelos de ensino baseados em projetos e metodologias ativas em geral (BENDER, 2014).

Como construir rubricas de avaliação

Crie uma tabela com alguns colunas e linhas como o exemplo abaixo.

Nível 1Nível 2Nível 3
Competência 1
Competência 2
Competência 3
Competência 4

Ao criar uma rubrica de avaliação, o primeiro passo é decompor o trabalho que os estudantes devem realizar em uma série de dimensões ou aspectos. Na redação do ENEM do exemplo acima, essas dimensões são as cinco competências; na rubrica de apresentação oral acima, são os quatro critérios: clareza de fala, postura e contato visual, conteúdo e preparação. 

Para definir esse primeiro ponto, é necessário ter clareza sobre o que se deseja ensinar com o trabalho proposto. Cada tipo de trabalho tem suas especificidades. 

Depois de estabelecer as competências ou dimensões nas quais o trabalho será avaliado, o próximo passo é pensar o número de níveis de desempenho. Para começar, 3 níveis é um bom número. Depois de uma primeira aplicação, será possível verificar se esses níveis foram suficientes ou a rubrica pode ser melhorada com o acréscimo de novos. 

Feito isso, você deve descrever níveis de desempenho em cada uma das dimensões. O ideal é que essas descrições sejam específicas o suficiente para o estudante identificar o que o trabalho precisava conter. Por exemplo, se estiver descrevendo níveis de competência da clareza de fala em uma apresentação, não escreva coisas como “fala de maneira adequada”, pois na falta de uma definição, “adequada” não significa muita coisa. Seria melhor escrever “projeta a voz de modo que todos conseguem ouvir e pronuncia as palavras de forma nítida e clara, de modo que todos conseguem compreender”.

A primeira vez que usar a rubrica criada, irá perceber que algumas descrições podem ser melhoradas para oferecer orientação ou feedback mais adequado para os estudantes. Faça anotações durante esse processo e use para qualificá-la.

Outra estratégia que pode usar na elaboração da rubrica é a colaboração dos alunos. Depois de apresentar a tarefa, peça para a classe estabelecer as competências que o trabalho deve satisfazer e descrições para diferentes níveis de desempenho.

Por fim, caso opte por isso, estabeleça uma pontuação. Nesse caso você tem duas opções. Cada dimensão pode ter o mesmo peso na nota final ou não. Algumas podem valer, por exemplo, duas ou três vezes mais que outras.

Atingiu (2 pts)Atingiu parcialmente (1 pts)Não atingiu (0 pts)
Competência 1210
Competência 2 (x2)420
Competência 3 (x3)630
Nota final1260

Na rubrica acima, a competência 2 pesa o dobro da competência 1 e a competência 3 o triplo. Para calcular a nota final, o nível atingido na competência 2 deve ser multiplicado por 2 e na 3 por três. Um estudante que atingisse o nível máximo em todas as competências faria 2 pontos na competência 1, 4 pontos na competência 2 e 6 pontos na competência 3.

Esses cálculos podem se tornar bastante complexos em um trabalho com vários níveis de desempenho, dimensões de avaliação com variações de pesos. Mais uma razão pela qual a melhor opção, sempre que possível, é usar ferramentas digitais para a criação de rubricas ao invés de papel.

Rubricas de avaliação digitais

Alguns ambientes virtuais de aprendizagem, como o Microsoft Teams, o Google Sala de Aula e o Moodle, oferecem a possibilidade de anexar rubricas nas tarefas. Essas rubricas ficam visíveis para os estudantes e, no momento de avaliar, basta o professor clicar nas descrições que correspondem ao desempenho do trabalho. Quando devolver para o estudante, ele verá as descrições selecionadas destacadas. Caso a rubrica possua pontuações, o programa calcula a nota em função da descrição selecionada e define uma nota final.

Tele de criação de rubricas de avaliação no Google Sala de Aula

No vídeo abaixo você vê como isso pode ser feito no Google Sala de Aula. Essa talvez seja a melhor opção para a maioria dos professores. O programa do Google é gratuito e, para usar, basta usar um conta de email do Google. A maioria dos alunos já possuem e então a curva de aprendizagem e pequena e a implementação mais simples.

Clique nesse link para ver como criar rubricas no Moodle e nesse no Microsoft Teams.

Referências

William N. Bender. Aprendizagem baseada em projetos: educação diferenciada para o século XXI. Porto Alegre: Penso, 2014.

Stevens, Dannelle D. Introduction to rubrics : an assessment tool to save grading time, convey effective feedback, and promote student learning. Virginia: Stylus, 2005.

This post has 2 Comments

  1. Muito obrigado pela ajuda. Vou tentando usar conforme a demanda pois trabalho com salas na faixa de 40/45 alunos.

    1. William Godoy disse:

      Imagina, Marcus, que bom que ficou tentado a por em prática a ideia. Realmente é um número bem desafiador. Sabe que já havia feito uma tentativa a uns dois anos atrás e foi inviável, porque na escola faltavam recursos como impressão e a quantidade de papel que acabava acumulando era tão grande que não conseguia me organizar. Foi a quarentena que me obrigou a voltar a pensar nela e por em prática de outra forma. Como estou usando o Google Sala de Aula para esse período de aulas à distância, o processo ficou bem simples. Nada de impressão e papel acumulado. E a comunicação com os estudantes através das rubricas é bem efetiva. Eles conseguem identificar o que faltou nos trabalhos, fazer os ajustes necessários e reenviar. Agora acho que vou conseguir tornar o uso rotineiro quando voltar, porque pretendo continuar usando a plataforma do Google. Do contrário, com meus 300 alunos, seria inviável uma rubrica para cada trabalho ou projeto.

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