Uma simulação para refletir sobre o conceito de justiça

14 de dezembro de 2020 - 4 min leitura

Uma das experiências incríveis que me fazem desejar retornar sempre para uma sala de aula são aqueles momentos em que os estudantes se engajam de corpo e alma na proposta, se divertem e têm uma experiência marcante de aprendizagem. Nem sempre é fácil combinar tudo isso. Por vezes a atividade é divertida, mas não produz aprendizagem significativa. O contrário também acontece: aprendizagens significativas como resultado de um trabalho duro.

Uma das formas de combinar aprendizagem e engajamento é através de jogos e simulações nas quais os estudantes desempenham papéis, cooperam e competem em grupos ou individualmente.

Por acaso encontrei em um artigo de Harry Brighouse uma ideia de simulação envolvendo conceitos do contratualismo de Rawls que parece ter tudo isso. 

A ideia é que os estudantes são advogados de um cliente misterioso. Em seu nome, eles devem negociar com colegas um princípio de justiça que seja o mais satisfatório possível para seu cliente. Os colegas estão na mesma condição, representam um cliente misterioso, de modo que todos devem chegar a um acordo. Esse acordo deve ser muito bem pensado, porque o cliente não poderá voltar atrás depois que o contrato for assinado por seu representante.

O grande desafio para os advogados é que eles não sabem quais as características e interesses dos clientes. Não sabem se são negros ou brancos, ricos ou pobres, homens ou mulheres, não sabem absolutamente nada.

Para que a discussão não aconteça em um vácuo, algumas ideias de princípios podem ser disponibilizadas. No artigo do Harry encontramos a lista abaixo. Obviamente ela pode ser modificada, aumentada ou diminuída. E claro, é necessário vários esclarecimentos iniciais para que todos compreendam as implicações práticas de cada um dos princípios.

  1. Laissez-Faire: Os mercados funcionarão sem intervenção governamental, exceto para proteger a propriedade privada (incluindo a propriedade intelectual através da legislação de patenteamento e direitos autorais) e colocar limites modestos no surgimento de mercados oligopolistas e monopolistas.
  2. Igualdade de Recursos: As pessoas terão recursos aproximadamente iguais disponíveis para elas ao longo de suas vidas.
  3. Suficiência: Todos terão uma rede de segurança de “necessidades básicas” garantidas. Acima desse nível, os mercados determinarão recompensas, exceto quando a legislatura democraticamente eleita optar por restringi-las. (Se você selecionar este princípio, esteja preparado para explicar o que conta como necessidades básicas e a razão disso).
  4. Maximin: As desigualdades de recursos serão organizadas para que os menos favorecidos fiquem numa situação melhor da que estariam em qualquer outro princípio.
  5. Igualdade de Bem-Estar: Os recursos serão distribuídos para que todos estejam mais ou menos igualmente felizes.
  6. Você pode, se quiser, formular um compromisso entre esses princípios, ou formular um princípio totalmente diferente. Se assim for, deve ser preciso e você deve estar preparado para defendê-lo.

Muitas ideias podem ser acrescentadas dentro dessa proposta do Harry. Os advogados poderiam escrever cartas para seu cliente justificando a decisão adotada. Para auxiliar nessa tarefa, depois do acordo ser fechado, cada advogado poderia receber um envelope com informações sobre seu cliente. Nome, condição econômica, detalhes biográficos e qualquer informação imaginável irá tornar mais real a experiência e gerar reflexão.

Ainda não pude experimentar a ideia com meus alunos, mas me pareceu ótima e merece ser compartilhada. 

Se resolver experimentá-la com seus alunos, tiver alguma sugestão de acréscimo ou mudança, não deixe de compartilhar conosco nos comentários. Essas conversas de professores nas redes são cheias de inspiração e novas ideias para tornar a experiência de aprendizagem de nossos alunos mais rica.

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