Epicuro | Filosofia na Escola

Epicuro

Epicuro

Biografia

Epicuro nasceu na ilha de Samos, em 341 a.C., pouco tempo depois da morte de Platão. Começou a se interessar pela filosofia ainda muito jovem. Estudou com seguidores de Platão e Demócrito, dois dos filósofos mais importantes da antiguidade. Em 306 a. C. fundou em Atenas uma escola própria e se dedicou a elaborar uma nova filosofia.

Epicuro é conhecido como o filósofo do jardim, por ter fundado uma escola que era um misto de escola e comunidade, em uma propriedade particular nos arredores de Atenas. No jardim, Epicuro vivia em conjunto com seus amigos e seguidores praticando a filosofia. O local se tornou um símbolo do desapego e do modo de vida dedicado ao prazer defendido pelos epicuristas.

Epicuro era conhecido e seu modo de vida atraia curiosos. Há uma história sobre um rei veio lhe visitar uma vez.

E ele estava pensando que esse homem devia estar vivendo no luxo porque seu lema era: comer, beber e ser feliz. “Se esta é a mensagem”, pensou o rei, “verei pessoas vivendo em luxo, em condescendência.” Mas quando ele chegou, viu pessoas muito simples trabalhando num jardim, regando árvores. O dia inteiro eles estavam trabalhando. Elas tinham muito poucos pertences, apenas o suficiente para viver. E à noite, quando estavam jantando, não havia nem manteiga; apenas pão seco e um pouco de leite – mas elas vivenciavam aquilo como se fosse uma festa. Depois do jantar, dançaram. O dia acabou e eles ofereceram um agradecimento à existência. E o rei chorou – porque sempre pensara em condenar Epicuro em sua mente.

Ele perguntou: “O que você quer dizer com ‘comer, beber e ser feliz?’”

Epicuro disse: “você viu. Por vinte e quatro horas estamos felizes aqui. E se você quer ser feliz, você tem que ser simples – porque quanto mais complexo você é, mais infeliz você se torna. Quanto mais complexa a vida, mais miséria ela cria. Somos simples, não porque estamos buscando a Deus, somos simples, porque ser simples é ser feliz.”

E o rei disse: “eu gostaria de enviar alguns presentes para você. O que você gostaria para o jardim e sua comunidade?”

E Epicuro estava perplexo. Ele pensou e pensou e disse: “não achamos que mais alguma coisa seja necessária. Não se ofenda; você é um grande rei, você pode dar tudo – mas nós não precisamos. Se você insistir, pode mandar um pouco de sal e manteiga.” Ele era um homem austero.

A comunidade logo despertou suspeitas. Epicuro possuía muitos críticos e pessoas descontentes com sua valorização do prazer. Como sempre acontece, vários boatos foram espalhados sobre a comunidade dos epicuristas. O irmão de um amigo de Epicuro chegou a dizer que o filósofo precisava vomitar duas vezes por dia por comer em excesso. Já Diotino, o Estoico, publicou cinquenta cartas obscenas alegando terem sido escritas por Epicuro em estado de excitação sexual.

Apesar das associações que falar de prazer geralmente desperta, o que Epicuro propunha como uma vida feliz era sobretudo o cultivo de prazeres modestos, o cultivo da amizade e da reflexão, para que a vida não seja assombrada pelo medo dos deuses ou da morte.

Epicuro morreu em 270 a. C. e epicurismo começou a perder espaço com a ascensão do cristianismo. Os cristãos não viam com bons olhos a valorização epicurista dos prazeres mundanos, pelo contrário, tudo isso era encarado como um pecado pela nova religião. O cristianismo também foi um dos motivos pelos quais restaram poucos escritos de Epicuro. Embora tenha sido um escritor prolífico, de suas inúmeras obras restou a Carta a Meneceu, uma breve exposição das suas ideias éticas, a Carta a Heródoto, que resume sua metafísica e a Carta a Pítocles, que fornece uma explicação atomista para fenômenos naturais.

Ainda assim, sua influência na antiguidade foi duradoura. Cerca de 400 anos depois da morte de Epicuro, Diógenes, um homem rico de Enoanda, pagou pela construção de um muro no mercado da cidade com mensagens baseadas na filosofia de Epicuro. Ele explica que pouco antes de morrer quis “compor um belo hino para celebrar a plenitude do prazer e, dessa forma, ajudar aqueles que estão saudáveis”. Era uma lembrança aos seus conterrâneos do que realmente tem valor na vida. No muro, se encontram frases como

  • “comidas e bebidas requintadas de modo algum libertam do mal ou proporcionam a saúde da carne.”
  • “Deve-se atribuir à riqueza excessiva o mesmo grau de inutilidade que representa acrescentar água a um recipiente que já está prestes a transbordar.

Filosofia de Epicuro

Epicuro via a filosofia como uma medicina da alma. Se a medicina procura livrar o ser humano de doenças e proporcionar uma vida saudável, a filosofia procura curar os males da alma e proporcionar uma vida feliz.

Epicuro procurou oferecer uma cura para a alma humana a partir de suas reflexões sobre a natureza e sobre a ética. A primeira, procura oferecer uma imagem adequada da natureza, para que o ser humano não tema a morte nem aos deuses. A segunda, mostrar o que é realmente importante para a felicidade.

Tudo é átomo e vazio

Epicuro estudou com um seguidor de Demócrito e assim como esse pensava que o universo é composto de átomos e espaço vazio entre eles. A razão que o leva a pensar assim é o fato de que tudo o que observamos é composto de partes menores. Um corpo humano, por exemplo, é composto de uma série de órgãos. Os órgãos, por sua vez, são compostos de células e assim por diante. Porém, esse processo de divisão não pode continuar infinitamente. Chegará um momento que encontraremos algo que não possui partes e não poderá ser dividido. Teremos encontrado o átomo, que em grego significa “sem partes”. Além disso, deve haver espaço vazio para que os objetos, pessoas, animais se movimentem, do contrário a natureza seria estática.

Essa concepção materialista de Epicuro tinha como finalidade terapêutica livrar as pessoas do medo dos deuses. Era comum na época pensar, na falta de explicação melhor, que os fenômenos naturais como tempestades, terremotos e outras catástrofes naturais eram o resultado da fúria divina, uma punição pelo comportamento incorreto dos humanos.

Para Epicuro, não é possível levar uma vida feliz sentindo medo a todo momento de punições dos deuses. Para livrar os homens dessa doença da alma, defendia que todos os fenômenos naturais, incluindo as catástrofes, eram o resultado do movimento dos átomos. Não havia por trás disso qualquer intenção ou propósito, apenas manifestações de uma natureza alheia aos interesses humanos.

Os deuses

Epicuro era acusado de ateu, embora não negasse a existência dos deuses. Porém pensava que os deuses eram completamente diferentes daquilo que pensavam as pessoas da época (e ainda hoje pensam). Pensava nos deuses como um tipo de ser especial, extremamente feliz e tranquilo, totalmente alheio aos seres humanos. Ele escreveu sobre os Deuses que

Aquele que é plenamente feliz e imortal não tem preocupações, nem perturba os outros; não é afetado pela cólera ou pelo favor, já que tudo isso é próprio à fraqueza.

Epicuro também fez críticas à concepção tradicional sobre deus ao apresentar o chamado problema do mal. Ele foi responsável por uma das primeiras formulações desse problema, que se tornaria muito discutido na modernidade, cerca de quinze séculos depois.

A morte

O segundo maior medo dos seres humanos, depois dos deuses, é da morte. Nesse caso, Epicuro também tinha um remédio baseado no atomismo. Muitos filósofos, como Platão, por exemplo, e pessoas comuns, acreditam no chamado dualismo de corpo e alma. Trata-se da crença de que o ser humano é composto por um corpo material, mortal, e uma alma não material e imortal.

Epicuro propôs uma filosofia da mente materialista. A mente humana, responsável por nossa capacidade de pensar, não é a alma como pensava Platão. Ao contrário, é um órgão composto de átomos assim como o coração. Não é possível que a mente seja uma alma imaterial porque corpo e mente estão a todo momento conectados e interagindo. Se penso em levantar da cadeira, minha mente é capaz de levantar meu corpo da cadeira. Se vejo uma cena emocionante através de meus olhos, meu estado emocional muda. Ora, como uma alma imaterial poderia se relacionar com um corpo material? Para Epicuro, por essa razão, não faz sentido postular a existência de uma alma imaterial para explicar os pensamentos. Assim como os demais fenômenos naturais, os pensamentos são o resultado de movimentos dos átomos.

Consequentemente, não há vida após a morte. Com a morte do corpo, seus átomos se separam e a pessoa que existia até então, suas memórias, medos, desejos deixam de existir.

Por essa razão, não há porque temer a morte. Na Carta a Meneceu, Epicuro escreve que

o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos.

Como a morte é o fim de qualquer consciência, não tem como ser dolorosa. Como a morte não resulta em dor nem sofrimento, não há porque temê-la.

Uma vida feliz

Para Epicuro, uma vida feliz é uma vida de prazeres. Ele afirma que o prazer é a finalidade da vida. Porém, nem sempre devemos nos entregar aos prazeres indiscriminadamente. É necessário fazer uma análise de custo benefício e avaliar se de um determinado prazer não surgirá, ao final, mais dor do que prazer.

É importante notar que que para Epicuro uma vida de prazeres é bem diferente do que geralmente pensamos ser um prazer. Na carta a Meneceu, o filósofo escreveu o seguinte:

Não são bebidas nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de uma mesa farta que tornam doce uma vida

Epicuro diferencia três tipos de desejos presentes nos seres humanos:

  1. Desejos naturais e necessários. Esses são os desejos elementares da natureza humana, como a comida, bebida, sono, amizade. Não há como ser feliz sem satisfazer esses desejos.
  2. Desejos naturais, mas não necessários. São desejos naturais, que resultam de necessidades humanas, mas é possível viver e ser feliz sem eles. São exemplos desse tipo de desejo uma mansão, banquetes, muita bebida.
  3. Desejos inúteis. Nessa última categoria se encontram os desejos que não satisfazem nenhuma necessidade natural, mas resultam das falsas opiniões humanas sobre uma vida boa. Estão incluídos aqui o desejo de fama, glória e poder.

Todos esses desejos, assim como o medo da morte ou dos deuses, estão presentes nos seres humanos e geram uma série de sofrimentos e perturbações. Se tenho desejo de comer, por exemplo, mas não tenho acesso a alimentos de qualquer natureza, sofrerei com a sensação de fome. Da mesma forma, se tenho desejo de ser muito rico, mas não encontro os meios para isso, o resultado será frustração e tristeza.

Porém, Epicuro pensa que a satisfação dos desejos naturais é fácil, de modo que daí não surgirá sofrimento. Os demais desejos, por outro lado, podem ser evitados desde que a pessoa se dedique à reflexão.

O ideal epicurista é uma vida simples, tranquila e rodeada de amigos. O objetivo principal de sua filosofia foi livrar os seres humanos de crenças falsas que geram grande sofrimento ao longo da vida. Um epicurista seria capaz de alcançar um estado de tranquilidade e contentamento com o que a vida oferece, desfrutando de prazeres simples proporcionados pelas necessidades naturais e necessárias ao lado de muitos amigos.

Citações de Epicuro

A filosofia

Assim como a medicina não traz benefícios se não liberta dos males do corpo, o mesmo sucede com a filosofia, se não liberta dos sofrimentos da alma.

O homem que alega não estar ainda preparado para a filosofia ou afirma que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou assemelha-se ao que diz que é jovem ou velho demais para ser feliz.

A amizade

De todas as coisas que nos oferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade.

Antes de comer ou beber qualquer coisa, pondere com mais atenção sobre com quem comer e beber do que sobre a comida ou a bebida, pois alimentar-se sem a companhia de um amigo é o mesmo que viver como um leão ou um lobo.

A morte

Não existe nada de medonho na vida para o homem que compreendeu verdadeiramente que não existe nada de terrível em não viver.

Livros de Epicuro

A Carta a Meneceu é um dos principais documentos sobre as ideias de Epicuro. É uma carta escrita a uma amigo que aborda os principais tópicos de sua filosofia. É um texto curto que vale muito a leitura, se você tem interesse em conhecer melhor o filósofo do prazer.

Referências

Diógenes Laertios. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1988.

Epicuro. Carta a Meneceu. 

Giovanni Reale. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Paulus Editora, 1990.

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