Filosofia na Escola

Pesquisa global

Pesquisar páginas, seções e temas do site. Quando não houver resultado rápido, a busca consulta o conteúdo publicado.

Entrar

Teoria do humor como incongruência

Na teoria da superioridade, como vimos com Hobbes, o riso nasce de uma comparação: achamos graça quando nos sentimos acima dos outros: mais espertos, mais adequados, mais “certos”. Mas nem todo riso parece funcionar assim. 

Alguns filósofos discordaram dessa ideia. Eles observaram que, muitas vezes, o riso surge não por causa do outro, mas por causa de algo inesperado. É como se estivéssemos esperando uma coisa e, de repente, acontece outra totalmente diferente. Essa quebra de expectativa, esse desajuste entre o que imaginamos e o que acontece, pode provocar uma reação inesperada: o riso.

Essa é a base da chamada teoria do humor como incongruência. Entre os pensadores que desenvolveram essa ideia está Immanuel Kant, um filósofo que talvez você conheça por seus estudos sobre moral e o entendimento. Mas, sim, ele também escreveu sobre o riso. E, para ele, o humor nasce justamente do momento em que nossas ideias “saem do trilho” e são substituídas por algo que não esperávamos.

Kant e o riso como quebra de expectativa

Immanuel Kant escreveu sobre o riso em uma obra chamada Crítica da Faculdade do Julgar. Para ele, o riso acontece quando uma expectativa mental é construída e, de repente, se desfaz no nada. O prazer que sentimos nesse momento vem justamente dessa transformação rápida: estávamos acompanhando um raciocínio, esperando um desfecho, e de repente tudo é quebrado e rimos.

Kant explica sua teoria a partir de uma pequena história:

Um indiano, à mesa de um inglês em Surat, ao ver uma garrafa de cerveja aberta e toda a cerveja transbordando em espuma, testemunhou seu grande espanto com muitas exclamações. Quando o inglês lhe perguntou: "O que há nisso para tanto espanto?", ele respondeu: "Não estou nem um pouco surpreso que ela tenha vazado, mas me pergunto como você conseguiu fazê-la entrar."

Por que a história é engraçada?

Kant explica que não é “porque nos consideremos mais inteligentes do que esse homem ignorante, ou por qualquer coisa nela que notamos como satisfatória para o entendimento, mas porque nossa expectativa foi forçada (por um tempo) e então foi repentinamente dissipada no nada”.

Ele ainda conta outra piada que funciona a partir dessa quebra de expectativa:

O herdeiro de um parente rico queria organizar um funeral imponente, mas lamentou não conseguir fazê-lo adequadamente; "pois" (disse ele) "quanto mais dinheiro eu dou aos meus enlutados para parecerem tristes, mais alegres eles parecem!"

Esse é o ponto central da teoria da incongruência: o riso surge quando estamos mentalmente engajados numa linha de pensamento — e, de repente, essa linha é cortada de forma inesperada. É essa ruptura que provoca prazer e gera riso.

Incongruência e estereótipos

A palavra incongruência significa, em geral, uma falta de harmonia entre elementos que deveriam combinar. No caso do humor, trata-se de uma quebra nas nossas expectativas: imaginamos uma coisa, mas acontece outra completamente diferente e essa diferença, quando inesperada, pode provocar riso.

Mas de onde vêm essas expectativas que carregamos? Muitas delas não nascem do nada. São formadas por normas sociais, padrões culturais e estereótipos que aprendemos ao longo da vida. Esperamos certas reações, certas relações ou certos comportamentos porque fomos ensinados, direta ou indiretamente, a considerá-los "naturais" ou "normais".

É por isso que certos tipos de humor usam estereótipos sociais para provocar riso. Eles se aproveitam do fato de que já esperamos algo sobre um grupo, uma pessoa ou uma situação — e, quando algo diferente aparece, rimos. O riso surge não só porque houve uma incongruência lógica, mas porque uma expectativa social foi desafiada.

Em uma entrevista para a BBC News, Adilson Moreira relata o seguinte:

Um dos personagens mais famosos da televisão brasileira é o Mussum, dos Trapalhões. [...] Havia a representação dele como alguém que não poderia ser parceiro sexual ou objeto de apreciação estética. Quando apareciam mulheres como Xuxa e Luiza Brunet apaixonadas por Mussum ou João Macalé, o humor vinha da suposta impossibilidade dessa relação, por eles serem considerados feios ou inaceitáveis.

A reação do público era de riso. Mas o que havia de engraçado nisso?

A graça vinha justamente da quebra de uma expectativa social racista, ainda muito presente naquela época (e em muitos contextos atuais), de que pessoas negras não eram vistas como desejáveis ou compatíveis com aquele padrão estético. O humor explorava essa incongruência socialmente construída: a ideia de que aquele tipo de relação era absurda ou impensável.

Esse tipo de piada pode parecer inofensiva, mas também revela, e às vezes reforça, os próprios estereótipos que causa a quebra de expectativa. O riso, nesse caso, funciona porque algo foge do esperado. Mas a pergunta que fica é: por que esperávamos aquilo em primeiro lugar? 

Referências

MORREALL, John. Philosophy of Humor. In: ZALTA, Edward N.; NODELMAN, Uri (eds.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: https://plato.stanford.edu/archives/fall2024/entries/humor/. Acesso em: 7 ago. 2025.

PASSARINHO, Nathalia. Brancos usam 'humor' e 'amigo negro' para perpetuar discriminação, diz autor de 'Racismo Recreativo'. BBC News Brasil, 27 nov. 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-59422927. Acesso em: 7 ago. 2025.