Materialismo histórico

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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
dezembro 2019 - 6 min de leitura

O materialismo histórico é uma teoria da história criada por Karl Marx (1818 – 1883). Ela explica mudanças sociais afirmando que são determinadas pelo desenvolvimento tecnológico, luta de classes e outros processos econômicos.

Essa teoria se opõe ao idealismo histórico, segundo o qual mudanças na sociedade ocorrem porque os seres humanos inventam novas ideias, mudam sua forma de pensar.

O materialismo histórico é uma ideia muito abstrata, por isso vamos explicar seu funcionamento através do estudo de alguns exemplos.

Relações de produção ao longo da história

Se olharmos para o passado, pensa Marx, iremos perceber que os seres humanos satisfizeram suas necessidades através de quatro modos de produção diferentes:

  • Modo de produção primitivo. Nas primeiras sociedades, a produção era realizada por todos e distribuída para todos. Não havia grande divisão de trabalho ou direito de propriedade. A terra era usada para plantar e o resultado da caça não era de uma pessoa apenas, mas da comunidade toda.
  • Escravidão. Uma segunda forma de produção muito comum na história foi a captura e uso de pessoas no trabalho forçado. Nesse caso, o trabalhador se torna propriedade de um senhor de escravos. A terra, o trabalho e os frutos desse trabalho são propriedade de um indivíduo e não da comunidade.
  • Servidão. Diferente da escravidão, num regime de servidão os trabalhadores não são propriedade dos senhores. Nesse caso, o senhor é dono da terra e oferece proteção para o servo. O servo recebe a autorização para plantar em terras que não são suas e deve, em troca, trabalhar, um tempo determinado, para o senhor. Embora o trabalhador seja proprietário do seu trabalho, não é dono da terra.
  • Capitalismo. No capitalismo, o trabalhador também é dono apenas de sua força de trabalho. As ferramentas, o dinheiro que precisa ser investido na compra de insumos e as máquinas são propriedade do capitalista. O trabalhador nesse caso recebe um salário em troca de seu trabalho. Já o capitalista recebe o lucro da produção.

Observando esses modos de produção, percebemos que se diferenciam pela forma como estabelecem direitos de propriedade. Ou seja, quem é dono de que. Marx chama isso de relações de produção. Então, ao longo da história, as pessoas estabeleceram diferentes relações de produção para satisfazer suas necessidades de alimento, abrigo, etc.

As relações de produção são determinadas pela tecnologia

Segundo o filósofo, se observarmos a história de muitas sociedades, veremos que há uma progressão. Elas começaram com uma forma primitiva de produção, passaram para a escravidão, para a servidão e, por fim, para o capitalismo.

Diante disso, a questão que o materialismo histórico procura responder é: o que provocou essas mudanças? Por que as sociedades foram mudando as relações de produção?

De acordo com essa teoria, tais mudanças foram provocadas pelo progresso tecnológico. Nas palavras de Marx,

“O moinho movido a braço engendra a sociedade com os senhores feudais: o moinho a vapor, a sociedade dos capitalistas industriais”

A explicação de Marx para como a tecnologia determina a mudança nas relações de propriedade é a seguinte. Segundo ele, por um determinado período, as relações de produção contribuem para o desenvolvimento tecnológico. No entanto, chega um momento em que elas passam a atrapalhar esse progresso. Isso causa uma “época de revolução social” e novas relações de produção são estabelecidas.

Ver também  Luta de classes

A passagem do capitalismo para o socialismo

Marx viveu no século XIX e acreditava que uma mudança nas relações de produção estava prestes a ocorrer: o capitalismo iria ser substituído pelo socialismo. Na sua concepção, essa mudança não seria provoca pelo desejo dos homens ou ideias inovadoras. Sua análise da história o levou a conclusão de que essa transição era inevitável, por causa das mudanças tecnológicas produzidas pelo próprio capitalismo.

Um dos livros nos quais Marx apresenta essa análise é o Manifesto Comunista. Vamos conhecê-la em mais detalhes para entender o conceito de materialismo histórico.

Quando o modo de produção capitalista entrou em cena no século XIX, com a Revolução Industrial, uma série de tecnologias foram desenvolvidas e por isso novas condições sociais se estabeleceram.

Até então, a maioria dos trabalhadores vivia da agricultura, isolados uns dos outros. Com a criação das fábricas, eles passaram a se aglomerar em grandes cidades numa quantidade nunca vista. Sua proximidade e número fez com que se tornassem uma importante força política.

A criação de tecnologias como o trem aproximou trabalhadores de diferentes localidades, o que criou condições para que se organizassem como uma classe em todo o país.

Por outro lado, apesar do desenvolvimento tecnológico, os trabalhadores se encontravam numa situação de miserabilidade maior do que quando viviam da agricultura. Com salários minúsculos, em torno de 14 horas de trabalho por dia e risco permanente de perder emprego, sua situação econômica não era nada confortável.

Surgiram, assim, os primeiros sindicatos. Inicialmente eles lutavam por melhores condições de trabalho. Na Inglaterra, por exemplo, os trabalhadores organizados conseguiram, em meados do século XIX, estabelecer a lei de 10 horas de trabalho por dia.

Ao longo desse processo, Marx acreditava que os trabalhadores tomariam consciência de que é a propriedade privada das fábricas a responsável por suas condições de vida precárias. Pois é ela que permite ao capitalista explorar seu trabalho. Como não têm nada a perder, irão lutar para torná-las propriedade social e deixar de ser explorados.

Ao concluir sua análise, Marx afirma

Assim, o desenvolvimento da grande indústria tira da burguesia (capitalistas) o próprio chão sobre o qual ela produz e se apropria de produtos. O que ela produz é, sobretudo, seu próprio coveiro. Sua derrota e a vitória do proletariado (trabalhadores) são, ambas, inevitáveis.

Marx acreditava que o desenvolvimento da indústria criou as condições sociais para uma revolução nas relações de produção. Ao transformar os trabalhadores (proletariado) em uma grande massa e aproximá-los, os empresários (burgueses) criaram uma força política que consegue acabar com seu domínio.

As ideias não mudam a história

De acordo com o materialismo histórico, é a tecnologia e a base econômica de uma sociedade que fazem a história. As ideias, por mais inteligentes e bem demonstradas que sejam, não conseguem determinar seus rumos.

Por essa razão Marx acreditava que o capitalismo iria ser substituído pelo socialismo. Ao identificar uma série de condições sociais, concluiu que os trabalhadores seriam uma força revolucionária que tomariam o poder e promoveriam uma mudança nas relações de produção, instaurando uma economia socialista.

Referências

Elster, John. Marx, Hoje. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

Engels, Friedrich. Marx, Karl. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.

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