A ideologia para Marx

ideologia segundo Marx
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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
novembro 2019 - 4 min de leitura

O conceito de ideologia tem vários significados. Ele foi criado no século XVIII pelo filósofo francês Destutt de Tracy para designar uma nova área de investigação: o estudo das ideias.

Associado a esse significado, por vezes a palavra ideologia é usada num sentido neutro. Nesse caso, se refere a um determinado conjunto de ideias, nem boas, nem más, apenas ideias.

Com Karl Marx (1818 – 1883) o conceito de ideologia ganha outro significado. Ele passa a designar uma ideia ilusória, uma falsa consciência. Esse é um tipo de ilusão que mascara a realidade e impede as pessoas de conhecerem como ela de fato é. Nesse caso, a palavra ideologia deixa de ter um sentido neutro e se torna crítica. Chamar determinadas ideias de ideológicas é uma forma de condená-las.

Ideologia e interesses de classe

Dissemos que a ideologia é uma falsa consciência, uma ilusão. A questão agora é entender por que ela ocorre.

Para Marx, essas ilusões sobre como o mundo realmente é não são erros aleatórios. Elas têm uma explicação social: o interesse e a posição de classe. A ideologia é criada pela classe dominante de uma sociedade e serve para que mantenha sua posição.

Vamos considerar um exemplo disso que Marx chama de ideologia. Sempre que surge o debate sobre aumento de impostos para os mais ricos, a crítica padrão diz que isso vai reduzir o crescimento e a inovação.

Por que essa essa consequência é sempre apresentada e considerada por muitos indivíduos? Atualmente, por exemplo, a riqueza das pessoas mais abastadas cresce acima da média e número de bilionários no Brasil e no mundo vem aumentando. Ainda assim, ao menor sinal de aumentar impostos para esses grupos, afirmam que isso trará consequências prejudiciais para a sociedade.

A explicação de Marx para isso é simples. As pessoas tendem a acreditar e defender aquilo que as beneficia. Os mais ricos não querem ter que pagar impostos. Isso os faz pensar que essa política vai gerar problemas para toda a sociedade, como a falta de crescimento e inovação.

O erro que estão cometendo nesse caso é típico de todo pensamento ideológico, um erro chamado de tomar a parte pelo todo. Ele consiste em pensar que seu interesse de classe corresponde ao interesse de toda a sociedade.

Ver também  Socialismo utópico

Exemplos de teorias ideológicas analisadas por Marx

Ao longo de vários livros, em especial O Capital e A Ideologia Alemã, Marx analisa algumas ideias políticas, morais, religiosas e econômicas que, na sua perspectiva, são ideológicas. Ou seja, não passam de ilusões motivadas pelo interesse da classe dominante.

Antes do capitalismo, a classe mais abastada da sociedade na Europa era composta por senhores de terras, que obtinham sua renda através do aluguel de suas propriedades. Tais pessoas eram parasitas da sociedade que viviam do trabalho alheio, pois não produziam nada. Se a propriedade de suas terras fosse transferida para os trabalhadores, a sociedade não sairia perdendo.

Tentando justificar a necessidade dos proprietários de terras ociosos, Malthus afirmou que eles eram indispensáveis para assegurar que houvesse demanda suficiente para a produção dos trabalhadores.

Para Marx, essa é uma teoria claramente ideológica. Afinal, é fácil perceber que, se os senhores de terras não existissem, a renda que extraíam dos trabalhadores através do aluguel da terra ficaria com os verdadeiros produtores. Tendo mais dinheiro, poderiam comprar mais e gerariam a demanda para sua produção.

A única explicação, portanto, para a defesa dessa ideia é o interesse de classe. Malthus estava sob o efeito de uma ilusão provocada por interesses que o faziam confundir interesse pessoal com interesse de toda a sociedade.

Outra ideia que recebeu especial atenção de Marx são as crenças religiosas. A religião também é considerada por ele uma ideologia. Uma falsa consciência mantida por interesses de classe. Porque, por um lado, ao prometer uma vida depois da morte, ela dá um sentido para o sofrimento e a miséria dos trabalhadores. Marx a chama de ópio do povo. Por outro, ao dizer que as pessoas devem ser pacíficas, contribui para manter a ordem social de desigualdade.

Referências

Elster, John. Marx, Hoje. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

Marx, Karl. A ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.

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