Ideias de Karl Marx

Ideias de Karl Marx

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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
dezembro 16, 2019 - 9 min leitura

Karl Marx (1818 – 1883) foi um economista, filósofo, sociólogo, jornalista e ativista político. Publicou dezenas de livros sobre esses temas. Entre os mais conhecidos estão O Manifesto Comunista e O Capital. O primeiro é um panfleto com as ideias e o programa político do nascente partido comunista. O segundo, uma análise e crítica do sistema capitalista.

Suas ideias foram extremamente influentes. Elas são a base da ideologia de muitos partidos de esquerda ao redor do mundo. Além disso, regimes comunistas, como o da China e Cuba, se declararam alinhados ao pensamento de Marx.

Nesse artigo vamos conhecer suas principais ideias. Conceitos como materialismo histórico, ideologia, alienação, exploração, luta de classes e outros. Cada subtítulo explora um desses conceitos de forma breve e ao final você encontra referências com artigos complementares.

Infraestrutura e superestrutura

Marx diferencia entre infraestrutura e superestrutura ao analisar a sociedade. A primeira é tudo aquilo que serve para a produção econômica. Inclui a tecnologia, a ciência, a educação técnica, os recursos naturais e as relações de produção. A segunda é tudo aquilo que não faz parte da base econômica da sociedade, como a religião, os valores morais, as leis, o Estado, a política, a polícia, a ideologia etc.

Materialismo histórico

materialismo histórico explica porque ocorrem mudanças sociais. Ao estudarmos a história, percebemos que algumas sociedades se tornam capitalistas, escravagistas, democráticas, autoritárias, cristãs, muçulmanas. Segundo o materialismo histórico, tais mudanças são o resultado de alterações na base econômica das sociedades, em especial na sua tecnologia.

Essa teoria de Marx afirma que a infraestrutura da sociedade determina sua superestrutura. Sendo assim, quando a primeira muda, a segunda também muda. Numa citação conhecida, ele afirmou

“O moinho movido a braço engendra a sociedade com os senhores feudais: o moinho a vapor, a sociedade dos capitalistas industriais”

Em outras palavras, Marx acredita que essa mudança tecnológica provocou grandes mudanças nas relações sociais, fez que determinadas sociedades deixassem de ser feudalistas e passassem a ser capitalistas.

Luta de classes

Para Marx, sempre existiram classes sociais. Na Idade Média, por exemplo, a sociedade tinha os senhores feudais e os servos. Na Idade Moderna, ao longo de vários séculos, haviam senhores e escravos.

No capitalismo também existem classes sociais, mesmo ele sendo um sistema mais igualitário que a escravidão. Elas são os trabalhadores assalariados e os capitalistas donos de fábricas e outro meios de produção.

Marx também acreditava que essas classes estão em conflito por razões econômicas. O capitalista pode obter mais lucro se pagar um salário menor e aumentar a intensidade e tempo de trabalho. O trabalhador, ao contrário, deseja um salário maior e um trabalho menos desgastante. O resultado desse desejos de classe opostos é a luta permanente.

No início do capitalismo, a época em que Marx escrevia, os capitalistas levaram a melhor com a ausência de regulação do mercado de trabalho. Os salários eram pequenos e a jornada de trabalho durava mais de 15 horas. Com a organização dos trabalhadores em sindicatos, essa situação foi mudando ao poucos.

Marx acreditava que esse processo de organização dos trabalhadores, somado a outros fatores, levaria à revolução socialista. Que com a evolução dessa luta, eles passariam a exigir que as fábricas se tornassem propriedade pública e não existissem mais capitalistas. E assim teria fim a luta de classes na história.

Ideologia

Porém, Marx via vários obstáculos a essa revolução socialista, entre eles a ideologia.

Para o filósofo, ideologia é um conjunto de ideias falsas que mascara a realidade e impede que as pessoas vejam como ela é realmente. No entanto, essas ideias não são falsas simplesmente por um erro de raciocínio. Elas são geradas por interesses de classe. É a divisão da sociedade em classes que faz com que a ideologia exista.

Marx pensava que a classe mais poderosa da sociedade tende a acreditar e é capaz de fazer circular ideias que favorecem seus interesses. Isso acontece porque ela é proprietária de jornais e televisão, tem dinheiro para colocar os filhos na faculdade, pode pagar por publicidade e propaganda. A ideologia, portanto, um instrumento de dominação que, ao disfarçar a realidade, mantém estável a desigualdade de classe.

O ópio do povo

Para Marx, a religião é um dos tipos de ideologia presentes na sociedade capitalista. Ele a chama de “o ópio do povo”. Com isso queria dizer que ela serve como um anestésico para o sofrimento dos trabalhadores.

No período em que Marx viveu, aos trabalhadores na Inglaterra tinham jornada de trabalho de mais de 15 horas e salários miseráveis. Com o nível de sofrimento que experimentavam e sendo tão numerosos, por que aceitavam tudo calados?

Parte da explicação, pensava o filósofo, tem a ver com suas crenças religiosas. A religião incentiva as pessoas a serem obedientes e submissas, prometendo em troca uma vida após a morte cheia de felicidade. A consequência são trabalhadores dóceis, mesmo numa situação de extrema exploração.

Exploração

Para Marx, toda riqueza produzida em sociedades de classe está baseada na exploração. Ela existe no feudalismo, no escravismo e no capitalismo.

Explorar, de acordo com filósofo, consiste em se apropriar do trabalho alheio de forma não voluntária. Na escravidão isso é óbvio. O escravo é obrigado a ceder os frutos de seu trabalho para o senhor e não tem nenhuma possibilidade de dizer não.

No capitalismo, pensava Marx, em menor medida isso também ocorre por duas razões.

Em primeiro lugar, porque o trabalhador não tem outra escolha além de vender sua força de trabalho. Para a maioria das pessoas que não têm dinheiro ou bens, a única opção é trabalhar para o capitalista em troca de salário. Há, portanto, uma restrição em sua liberdade real. Embora juridicamente qualquer um possa ser dono da maior fábrica do mundo, na prática isso dificilmente ocorre.

Em segundo lugar, o trabalhador assalariado não recebe o valor integral de seu trabalho. Parte do que ele produz irá se tornar o lucro do capitalista. Por isso que Marx chama o lucro de mais-valia. É referência ao fato de que o trabalho do assalariado vale mais do que lhe é pago.

Alienação

Além da exploração, uma segunda crítica dirigida ao capitalismo por Marx está relacionada à ideia de alienação. Nesse sistema, pensava o autor, as pessoas são obrigadas a viver de forma contrária à natureza humana. Por isso elas são alienadas.

A alienação ocorre por causa de várias situações rotineiras no trabalho e no consumo.

Primeira: o trabalhador precisa se adaptar ao ritmo das máquinas no local de trabalho. Nessa condição, passa a ser um servo da máquina ao invés de controlá-la. Além disso, seu trabalho na linha de montagem é simplificado de tal maneira que perde todo atrativo. O único motivo que resta para trabalhar é o salário, pois o trabalho em si já não oferece nenhuma recompensa.

Segunda: os trabalhadores não são reconhecidos por seu trabalho. A única pessoa lembrada quando pensamos nos produtos que consumimos são os proprietários de empresas, não os milhares de pessoas que trabalham todos os dias para que eles existam.

Terceira: no capitalismo o consumo por vezes é compulsivo. Como as empresas precisam vender, criam propagandas para atrair consumidores. Resultado: desejos são criados para servir às necessidades da indústria ao invés de a indústria se limitar a satisfazer necessidades existentes.

Todos esses, pensava Marx, são problemas inseparáveis do capitalismo. A única solução é a substituição do sistema.

Economia planificada

Marx acreditava que o capitalismo iria ser substituído pelo socialismo. Com isso não haveria mais pessoas proprietárias de fábricas e outros meios de produção. E não menos importante, não existiria mais livre mercado.

Para o filósofo, o livre mercado é ineficiente. Por não existir uma instituição que planeje a quantidade necessária de cada mercadoria, as empresas não têm como saber o quanto devem produzir. Somando a isso as crises econômicas, o sistema sofre periodicamente com problemas como excesso de produção, desemprego, máquinas e fábricas ociosas. Esses são desperdícios de recursos que poderiam ser usados para tornar a sociedade mais rica.

Com o desenvolvimento do capitalismo, Marx pensava que esses problemas do livre mercado iriam se agravar, até gerar um colapso no sistema. Para evitá-los, o socialismo adotaria o planejamento centralizado. O Estado seria o proprietário das empresas e determinaria, através de um plano, a quantidade de cada bem que deveria ser produzido.

Revolução socialista

Marx acreditava que o capitalismo iria ser substituído pelo socialismo. Esperava isso como quem espera um fenômeno natural inevitável.

Seu conceito de materialismo histórico, luta de classes, exploração, alienação e aquilo que considerava as ineficiências do mercado livre o fizeram concluir que, num futuro próximo, ocorreria uma revolução socialista.

Nesse processo, as empresas iriam se tornar propriedade pública. O Estado deixaria de ser governado por uma democracia pouco inclusiva, como ocorria no século XIX, e passaria a ser governado por uma democracia na qual os trabalhadores teriam voz.

A pobreza e a exploração teriam fim, pois os próprios trabalhadores seriam donos, através do Estado, das fábricas e outros meios de produção. Além disso, ao receberem de acordo com seu trabalho, as diferenças de riqueza seriam atenuadas.

Esse ideal de socialismo inspiraria centenas de movimentos políticos no século XIX e XX e ainda hoje serve como referência para pensar os problemas do capitalismo.

Referências e leitura adicional

Essa apresentação simplifica muito um assunto complexo para manter o texto com tamanho adequado. Nesse link você encontra artigos que desenvolvem mais cada uma das ideias de Marx. Para uma leitura mais aprofundada, sugerimos o livro de John Elster.

Elster, John. Marx, Hoje. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

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