Diferenças entre utilitarismo e ética kantiana

Diferenças entre utilitarismo e ética kantiana

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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
dezembro 17, 2019 - 6 min leitura

utilitarismo e a ética kantiana são uma das principais abordagens na filosofia sobre ética. Ambas têm um apelo intuitivo, no entanto, apresentam diferenças significativas.

A tabela abaixo compara essas diferenças em relação a três aspectos. O restante do texto explica em mais detalhes cada uma dessas diferenças.

O que considerar ao avaliar uma ação? Qual o princípio moral? Por que esse princípio?
Utilitarismo Que consequências gera Princípio de utilidade Porque todo ser humano busca a felicidade
Ética de Kant Quais intenções a motivaram Imperativo categórico Por que agir de acordo com o imperativo categórico é ser livre e racional

Deontologia e consequencialismo

O que devemos considerar ao avaliar a moralidade de uma ação? As consequências da ação ou a intenção do agente?

A ética de Kant é chamada de deontológica ao passo que o utilitarismo é chamado de consequencialista. Cada uma dessas abordagens responde de forma diferente as questões acima.

A abordagem deontológica de Kant afirma que a única coisa que deve ser considera ao avaliarmos se uma pessoa agiu moralmente ou não é sua intenção. Para Kant, para que nossas ações tenham valor moral, devemos agir motivados pelo desejo de fazer nosso dever.

Em outras palavras, para agirmos moralmente devemos fazer o certo porque é a coisa certa a fazer, não tendo em vista algum outro fim, como a felicidade, o lucro pessoal etc. Por isso que uma ética deontológica também é chamada de ética do dever.

Desse ponto de vista, se uma pessoa faz uma boa ação porque espera receber uma recompensa, ir para o céu, ser bem vista, criar uma boa imagem ou age por sentimento de compaixão sua ação não tem valor moral.

A abordagem consequencialista, por outro lado, ignora completamente as intenções do agente e considera as consequências de suas ações. Sempre que agimos, nossas ações geram consequências benéficas ou prejudiciais para uma ou muitas pessoas.

Para o utilitarismo é só isso que importa. Portanto, se uma pessoa age de forma egoísta e suas ações têm consequências benéficas, um utilitarista não teria problemas em dizer que agiu moralmente.

Imperativo categórico e princípio de utilidade

Que princípio moral a ética kantiana e o utilitarismo adotam para considerar uma ação correta ou incorreta?

O utilitarismo usa o chamado princípio de utilidade. De acordo com esse critério, uma ação é correta se gera mais felicidade para as pessoas afetadas, consideradas imparcialmente. Por outro lado, é incorreta se gera sofrimento.

Kant, o utilitarismo e o dilema no trem

Para entender sua aplicação, considere um dilema moral clássico, o dilema do trem. Imagine que você se encontra próximo aos trilhos de um trem desgovernado e vê, amarradas, cinco pessoas no caminho do trem. Logo em seguida, percebe que é possível desviar o trem para um trilho secundário, porém há nele uma pessoa que será morta.

Para um utilitarista, não há dúvida sobre qual ação seria a correta. Matar uma pessoa para salvar cinco claramente resultará num saldo maior de felicidade do que não fazer nada. Portanto, se você fosse um utilitarista coerente, deveria puxar a alavanca.

Kant, por outro lado, utilizaria um critério diferente para tomar essa decisão. Seu princípio de ação moral é chamado de imperativo categórico. De acordo com esse critério, para uma ação ser correta ela deve ser universalizável e tratar as pessoas como um fim, não apenas como meio.

O que isso significa? Para Kant, ao praticarmos uma ação, devemos nos perguntar se queremos que ela se torne uma regra seguida por todas as pessoas em todos os tempos. Ao mentir, por exemplo, deveria me perguntar se desejo que a mentira se torne a regra e não uma exceção. Como ninguém deseja que ela se torne uma regra, claramente não é uma ação moral.

Tratar uma pessoa como um fim significa respeitar sua autonomia, sua capacidade de fazer escolhas, não usá-la ou tratá-la como tratamos as coisas ou animais não humanos.

Considerando o imperativo categórico e a ideia de que o que importa são as intenções, qual seria a ação apropriada, segundo Kant, no dilema do trem?

Kant pensaria, em primeiro lugar, que ao não agir para desviar o trem, você não está fazendo nada errado, pois não tem a intenção de matar cinco pessoas. Na verdade, se trata de uma fatalidade pela qual não deve ser responsabilizado.

Em segundo lugar, consideraria que, caso desvie o trem, está usando uma pessoa simplesmente como um meio para um bem maior. Para Kant isso seria incorreto, pois você está tratando a pessoa como uma coisa, não como um ser humano, já que está ignorando completamente sua capacidade de escolha.

Os desejos e a razão

As diferenças entre o utilitarismo e a ética kantiana estão relacionadas ao ponto de partida de cada uma dessas teorias morais.

Bentham, ao propor o utilitarismo, partiu do fato de que seres humanos desejam ser felizes. Sua ética, portanto, é baseada nos desejos humanos. O certo é aquilo que gera mais felicidade, o que depende de que tipo de desejo deve ser satisfeito para deixar cada pessoa feliz.

Na ética de Kant, por outro lado, os desejos não têm essa função, pois para agirmos moralmente não devemos seguir nossos desejos ou procurar satisfazer os desejos das pessoas. Seu ponto de partida era a razão e a liberdade.

Ele pensava que a única forma de sermos livres num mundo controlado por leis de causa e efeito era deixando de lado nossos desejos ao agir, pois eles não são frutos de uma escolha livre. Por isso só podemos agir moralmente se seguirmos o que nossa razão prescreve como nosso dever.

Para o utilitarismo, ao contrário, a razão é apenas uma “serva das paixões”, pois ela não tem como estabelecer por si só como devemos agir. A razão atua apenas de forma instrumental. Se temos o desejos de gerar mais felicidade, por exemplo, usando a razão e fazendo cálculos utilitaristas é possível saber que tirar a vida de uma pessoa para salvar cinco vai gerar mais felicidade que sofrimento. Porém, na ausência de desejos, a razão não é capaz de dizer o que devemos ou não fazer.

Referências

Sandel, Michael. Justiça: O que é fazer a coisa certa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

Rachel, James. Elemento de filosofia moral. AMGH: Porto Alegre, 2013.

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