Críticas de Marx ao capitalismo

Críticas de Marx ao capitalismo
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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
outubro 2019 - 9 min de leitura

Karl Marx (1818 —  1883) foi um dos maiores intérpretes e críticos do sistema capitalista. Ele pensava que esse modo de produção tinha tantos problemas que seria inevitavelmente substituído pelo socialismo.

Podemos discordar das conclusões de Marx, mas o fato é que algumas críticas que apresentou ao capitalismo são importantes para analisar e compreender a história, processos políticos e problemas sociais que enfrentamos ainda hoje.

Das muitas críticas que Marx ao capitalismo, três se destacam e iremos conhecer nesse texto:

  1. No sistema capitalista o trabalho é alienado e não tem sentido para o trabalhador. Em geral, poucos têm oportunidades de desempenhar funções que possibilitem desenvolver suas habilidades naturais, ser reconhecidos pelo que fazem e se realizarem em sua profissões.
  2. O sistema capitalista é ineficiente pois está sujeito a crises constantes. Essas crises geram desemprego, falências e outros problemas envolvendo desperdício de recursos que poderiam ser usados para tornar a sociedade mais rica.
  3. Relações capitalistas de trabalho envolvem exploração. Isso quer dizer que alguns, mesmo sem trabalhar, se apropriam dos frutos do trabalho de outros, que não recebem o valor integral do seu trabalho.

Alienação no trabalho

A primeira das críticas de Marx ao capitalismo afirma que a maioria das pessoas não têm oportunidade de desempenhar um trabalho significativo. As empresas, ao funcionarem apenas com o objetivo de gerar lucro, organizam o trabalho de forma maçante, repetitivo, sem permitir que as pessoas desenvolvam seu potencial como ser humano.

Você pode estar se perguntando por que isso acontece. Um primeiro fator apontado por Marx é a divisão do trabalho.

Pense que uma das forma de tornar mais eficiente a produção industrial é através da divisão do trabalho. Assim, numa fábrica de carros, por exemplo, algumas pessoas são responsáveis por projetar o carro e outras encarregadas de montá-lo. Em geral essa última parte do trabalho é repetitiva e mecânica.

A divisão do trabalho é adotada por razões de eficiência, pois agiliza o processo de produção. No entanto, o efeito disso é tornar o trabalho menos atrativo para o ser humano.

Marx apontava diversas razões que fazem com que esse trabalho se torne menos atraente:

  1. Ele faz com que o trabalhador exercite apenas algumas habilidades manuais.
  2. O trabalhador, ao dar apenas uma pequena contribuição para o conjunto do trabalho, é incapaz de se identificar com aquilo que fez.
  3. O trabalhador não se reconhece no resultado de seus trabalho, não é capaz de dizer “isso foi eu quem fez”. Em função disso, também não recebe o reconhecimento por aquilo que fez.
  4. Apenas algumas pessoas receberão esse reconhecimento: o dono da empresa e quem projetou o carro.

Talvez você esteja se perguntando por que é tão importante esse reconhecimento.

Marx acreditava que o homem é um ser social por natureza e que, portanto, uma das fontes de sua auto-estima é ser reconhecido por outros seres humanos, ter suas ações e seu trabalho valorizado.

Essa é a importância: se sentir bem, valorizado, passa pelo reconhecimento do próprio trabalho. Essa importância é maior ainda em sociedades nas quais as pessoas trabalham grande parte do tempo de sua vida adulta.

Uma segunda razão que torna o trabalho especialmente desagradável no capitalismo é a falta de autonomia do trabalhador. Muitas vezes  trabalhadores são obrigados a trabalhar no ritmo de uma máquina. Ao invés de trabalharem de acordo com o ritmo mais apropriado para si, são obrigados a se adequar a uma velocidade preestabelecida.

Note que nesse caso há uma inversão de papéis na relação homem e máquina: ao invés de o homem controlar a máquina, este é controlado por ela.

Marx tinha um conceito para se referir a esses diferentes problemas na condição do trabalhador assalariado: alienação no trabalho.

alienação para Marx
O homem é como um pássaro na gaiola. Assim como não é da natureza desse ficar preso, não poder voar, procurar seu próprio alimento ou se relacionar com outros pássaros, não combina com a natureza humana fazer durante toda a vida um trabalho repetitivo, não receber reconhecimento ou não ter autonomia no trabalho.

Estar alienado significa estar afastado de algo que é parte de nós por natureza. Para Marx, é da natureza humana ser um ser social, autônomo, com múltiplas habilidade e potencialidade para se desenvolver através do trabalho. Porém, no sistema capitalista, nada disso é possível. Por isso as pessoas se encontram alienadas de sua natureza humana.

Crises econômicas

Adam Smith (1723 – 1790) acreditava que quando os empresários buscam lucro pessoal concorrendo no livre mercado, o resultado é maior eficiência econômica, o que beneficia a todos. Disso tirou a conclusão de que o Estado deveria garantir o mercado livre.

Marx acreditava que um dos maiores problemas do capitalismo é justamente o mercado livre. Do seu ponto de vista, essa é uma forma totalmente irracional de organizar a produção econômica.

Ver também  Luta de classes

Uma das razões que o levaram a essa conclusão é a análise do efeito da redução da demanda no mercado. Para entender a ideia, considere um caso imaginário.

Suponha que o setor da indústria automobilística de um país seja impedido de exportar automóveis. Ao reduzir a demanda por esse tipo de produto, os donos das fábricas do setor terão que demitir funcionários. Embora seja grave um grupo de pessoas não ter trabalho, esse pode se tornar um problema ainda maior.

Os funcionários demitidos também são consumidores. Portanto, o fato de não terem um salário afeta outros setores da economia. Novos trabalhadores terão que ser demitidos, gerando um ciclo vicioso no qual o desemprego reduz o consumo e a demanda, que reduz a necessidade de trabalhadores, o que gera novas demissões.

crises econômicas segundo Marx

O resultado disso tudo é uma crise econômica: máquinas e pessoas ociosas, porque não existem compradores para a produção.

Exploração

A palavra exploração provavelmente faz surgir em sua mente a imagem de trabalhadores confinados em fábricas por mais de 10 horas por dia, recebendo um salário miserável, sem direito à folgas, férias etc.

Pensando a exploração dessa forma, poderíamos dizer que ela era um problema grave na época em que Marx vivia, nas fábricas da Inglaterra do século XIX. Mas hoje isso é uma exceção. Apenas alguns países permitem esse tipo de trabalho degradante, mas na maioria é ilegal. Poderíamos concluir, então, que hoje a exploração do trabalho foi severamente reduzida.

Porém, Marx tinha uma compreensão diferente do conceito de exploração. Pensava que a exploração é um fenômeno estrutural do capitalismo. Ou seja, que esse problema faz parte das regras do jogo desse sistema econômico. A única forma de não haver exploração é acabando com o capitalismo.

Para Marx, a exploração é a apropriação forçada de trabalho não remunerado do trabalhador.

No capitalismo, a maioria da pessoas não têm acesso aos recursos necessários para criar uma empresa. Tal fato as obriga a oferecer sua força de trabalho em troca de um salário.

Embora você possa escolher trabalhar numa fábrica de calçados ou de automóveis, como motorista ou pedreiro, o fato é que terá que vender para alguém sua força de trabalho. Desse ponto de vista, Marx vê o trabalho no capitalismo como algo forçado, mais ou menos como no feudalismo.

Não tendo opções reais, o trabalhador tem que se submeter às condições de trabalho numa empresa capitalista. E quais são essas condições?

De acordo com Marx, o lucro do capitalista só é possível porque ele deixa de pagar parte do valor produzido pelo trabalho de seus empregados. Assim, durante 6 horas de trabalho, por exemplo, uma pessoa é capaz de produzir um valor que é suficiente para pagar seu salário do dia. Porém, ele não trabalha apenas 6 horas, mas 8. Essas duas horas restantes irão gerar uma riqueza que será apropriada pelo capitalista, o seu lucro.

Como não tem outra opção além de vender sua força de trabalho, os trabalhadores têm que se submeter a essas relações de exploração. Tal fato se deve a condições desiguais de barganha. Quando poucas pessoas têm acesso ao dinheiro suficiente para criar fábricas, não têm outra escolha se não se submeter a essas condições de trabalho.

Nesse sentido, a única forma de acabar com a exploração do trabalho é acabando com a propriedade privada dos meios de produção (fábricas).

Uma cooperativa, por exemplo, na qual todo o lucro obtido com a produção é distribuído para os empregados de forma proporcional à sua contribuição não resulta em exploração no sentido de Marx, mesmo que as pessoas recebam salários diferentes.

a exploração segundo marx

Marx tinha uma ideia diferente para acabar com a exploração capitalista. Acreditava que todas as empresas deveriam ser geridas pelo Estado, não com a finalidade de obter lucro, mas satisfazer as necessidades humanas.

Do capitalismo ao socialismo

Marx considerava o capitalismo um sistema econômico extremamente falho e condenado a ser substituído cedo ou tarde pelo socialismo.

Nesse sistema não haveria exploração e a riqueza seria distribuída de acordo com a contribuição de cada um para a produção social.

A alienação do trabalho seria extinta ou reduzida através de medidas como o controle de trabalhadores sobre as fábricas.

E, por fim, a produção seria organizada de acordo com um planejamento centralizado e não com o do livre mercado. O socialismo de Marx é, assim, um sistema que procura resolver os principais problemas que identificou no capitalismo.

Referências

Elster, John. Marx, Hoje. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

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