Argumentum ad misericordiam ou apelo à piedade | Filosofia na Escola

Argumentum ad misericordiam ou apelo à piedade

apelo a piedade

Argumentum ad misericordiam é uma falácia que ocorre quando se apela à piedade para que uma conclusão seja aceita. Ou seja, ocorre quando se apela à compaixão, à emoção, se procura despertar pena em quem procuramos convencer através de argumentos. Seu nome latino é ad misericordiam.

Os exemplos dessa falácia são abundantes, já que ela é muito usada, sobretudo em situações nas quais queremos convencer alguém sem ter razão.

No entanto, é importante lembrar que o apelo à piedade nem sempre é uma forma incorreta de argumentação. Vamos analisar alguns exemplos desse tipo de argumento.

Exemplos de ad misericordiam

O primeiro exemplo é um caso típico de apelo à piedade feita por um advogado que está defendendo um assassino:

Me cliente vem de um ambiente completamente destruído pelo crime e pela drogas. Seu pai era traficante e  foi morto quando meu cliente ainda era criança. Sua mãe também foi castigada pelo destino. A vida dura fez com que se envolvesse com drogas e não conseguisse dar uma educação apropriada para os cinco filhos. A família passou por momentos terríveis, nem mesmo alimentos muito simples tinham para comer. Foi essa a sua infância, marcada pelo sofrimento, abandono, desespero. Foi aí que seu destino foi traçado, tornando inevitável o rumo que assumiu sua vida.

O que está em discussão em um júri é se o acusado cometeu ou não um crime. Cabe ao advogado de defesa tentar mostrar que isso não aconteceu ou que não existem provas de que tenha ocorrido. Ao apelar à piedade, como no exemplo, o advogado deixa de abordar o tema das provas. Quer convencer o júri, sem apresentar argumentos, que seu cliente deve ser inocentado.

O apelo à piedade funciona como uma distração daquilo que realmente importa no caso. Dependendo do caso, o apelo pode funcionar comovendo o júri e fazendo com que, movidos pela emoção e não pela razão, sejam levados a concordar com uma punição mais branda, mesmo se tratando de um assassinato.

Apelos à piedade são bastante eficientes quando combinados com imagens.

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Imagine que a imagem com a chamada abaixo faz parte de uma campanha publicitária para arrecadar fundos para financiar um programa de combate à fome em comunidades carentes. Suponha que além da imagem que está vendo, no verso há uma série de informações sobre as ações desenvolvidas, o número de pessoas que já receberam e recebem ajuda além de dados sobre o número de pessoas que ainda se encontra em uma situação de miséria.
exemplo de imagem que faz apelo à piedade
Esse tipo de apelo emocional é totalmente legítimo e não pode ser considerado falacioso. Nesse caso, o apelo à piedade não é usado como forma de distração da verdadeira questão, como no caso do advogado. Uma série de informações sobre a condição de vida das pessoas e da efetividade do programa de ajuda são oferecidos, para mostrar que uma doação é necessária e será bem utilizada. Mas para tornar a campanha mais convincente, uma imagem forte é apresentada para apelar à compaixão da pessoa que observa. Assim, razão e emoção são combinadas em um discurso altamente persuasivo.

Portanto, é importante não cometer o erro de pensar que todo apelo à compaixão ou piedade é falacioso. Há casos e casos. É necessária uma análise cuidadosa para avaliar.

De modo geral, naqueles casos em que a emoção é usada para desviar a atenção do assunto que deveria estar sendo discutido, estamos diante de uma falácia. O caso do advogado é um bom exemplo disso. Por outro lado, por vezes um apelo à compaixão é usado para incentivar as pessoas a adotar uma ação para a qual também existem boas razões para que se adote.

Referência e leitura adicional

Para conhecer mais, veja nossa lista de falácias com dezenas de textos didáticos abordando esse tema. Para uma análise mais aprofunda, sugerimos a leitura de Lógica Informal, um livro de Douglas Walton. Esse é o livro mais abrangente em português sobre o assunto.

Douglas Walton. Lógica Informal: manual de argumentação crítica. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

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