Post hoc ergo propter hoc: significado e exemplos

Post hoc ergo propter hoc
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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
Última atualização julho 2019

“Post hoc ergo propter hoc” é uma expressão latina que significa “depois disso, logo por causa disso”. Esse é o nome de uma falácia que ocorre quando concluímos existir uma relação causal entre dois eventos pelo fato de geralmente ou sempre ocorrem em sequência. Essa falácia também é chamada de falsa causa, correlação coincidente ou causa questionável.

Assim, suponha que você observa, com regularidade, que quando lava o tênis chove no dia seguinte. Considere que isso acaba ocorrendo repetidas vezes, até que você passa a pensar que, de alguma forma, sua ação de lavar o tênis está causando a chuva. Ao fazer esse raciocínio, está cometendo o erro post hoc ergo propter hoc. Ou seja, está concluindo de forma inválida que a causa da chuva é sua ação simplesmente por observar uma correlação entre ela e sua ação.

Correlação e causalidade

Ser capaz de determinar as reais causas de um evento é decisivo para compreendermos a sociedade e para sermos capaz de melhorá-la. Imagine um caso fictício. Um país resolve liberar a posse de armas para a população. Após a aprovação da lei, um grande número de pessoas passa a ter armas em casa. Dois anos depois, os dados sobre criminalidade do país são analisados e se constata que ocorreu uma queda no número de homicídios e de roubos. A partir disso, os defensores da política de armamento argumentam que a nova lei foi capaz de reduzir a violência.

É uma boa conclusão? Aparentemente sim, afinal a violência de fato reduziu. Porém, é necessário cautela na avaliação, porque podemos estar cometendo a falácia post hoc.

Foi observado algo que chamamos de correlação: ocorreu o evento A (liberação do porte de armas) e em seguida o evento B (redução da criminalidade). A mesma correlação foi observada no caso do tênis: ocorreu o evento A (lavar o tênis) e em seguida o evento B (chuva). Dizer que há uma correlação entre dois eventos significa que há uma relação temporal entre eles: um ocorre depois do outro.

A correlação é um bom indício de que há uma possível relação de causa e efeito entre dois eventos, mas por si só não é suficiente. Portanto, para que a conclusão de que a liberação da posse de armas reduziu a violência, do nosso exemplo acima, não seja um post hoc, é necessário descartar outras possibilidades. A redução na violência poderia ter sido provocada por outros fatores, como redução do desemprego, outras políticas governamentais relacionadas à encarceramento, educação, distribuição de renda etc. Somente depois que essas possibilidades tenham sido examinadas é possível verificar qual é realmente a causa da redução da violência.

Exemplos de post hoc

Abaixo colocamos alguns exemplos de post hoc tirados de debates reais. Eles estão muito presentes em debates envolvendo relação de causa e efeito e compreendê-los permitirá que seja capaz de identificar com mais facilidade quando são usados em textos e discursos.

Debate sobre maconha

Algumas pessoas se opõe à legalização do consumo de maconha com base no argumento de que essa é a porta de entrada para outras drogas. O consumo de maconha em si não é visto como negativo, mas o posterior abuso de drogas mais pesadas causado, inicialmente, pela maconha.

Suponha que seja verdade que pessoas que se tornam viciadas em cocaína, crack e outras drogas consumiu maconha como sua primeira droga ilícita. O que deveríamos concluir disso? Que foi o consumo de maconha despertou o desejo por outras drogas e, portanto, deve ser considerada a causa do consumo de outras drogas?

Como já deve ter percebido depois de analisar o exemplo acima, seria precipitado responsabilizar automaticamente a maconha sem explorar outras possibilidades. Os defensores da legalização da maconha argumentam que não é a maconha, mas o local onde a maconha é comprada a porta de entrada para outras drogas. Os traficantes que vendem maconha também vendem cocaína e outras drogas. Para aumentar seu lucro, oferece para seus clientes outras opções além daqueles que procuram inicialmente. Dessa perspectiva, a causa verdadeira do vício em drogas pesadas é a boca de tráfico, não a maconha. Se ela fosse legalizada, de forma alguma seria a entrada para outras drogas.

Na falta de evidência de ambos os lados do debate, as duas coisas são possíveis. Ao argumentar que a maconha em si mesma leva ao consumo de outras drogas, pode estar ocorrendo um post hoc.

Debate sobre vacinas

Muitas doenças que foram erradicadas com campanhas de vacinação estão ressurgindo. Isso se deve a uma queda no número de crianças vacinadas, resultado da resistência dos pais em vacinar os filhos por acreditarem que isso pode causar doenças.

Os movimentos antivacina se espalharam pelo mundo depois da publicação de um artigo por Andrew Wakefield, em 1998, no The Lancet, uma revista científica. Nesse artigo, defendia que a vacina conjunta contra a rubéola, caxumba e sarampo, conhecida como tríplice viral (MMR, na sigla em Inglês), provoca o autismo. Embora o estudo tenha criticado por vários pesquisadores, que apontaram erros importantes, e outras pesquisas tenham mostrado que a tríplice viral não causa autismo, o medo se espalhou e deu força ao movimento antivacina.

A partir disso, muitos pais passaram a relatar que receberam diagnóstico de autismo para seus filhos depois de darem a vacina tríplice viral e concluíram que era a vacina a causa da doença. É natural pensar assim, mas é uma falácia post hoc.

Em primeiro lugar, porque inúmeras pesquisas não encontraram qualquer relação entre uma coisa e outra. Um estudo recente feito na Dinamarca com 600 000 crianças, por exemplo, concluiu que a vacina não causa autismo. Em segundo lugar, porque há uma explicação simples para as observações relatadas por país. Pessoas geralmente são diagnosticadas com autismo na infância, na idade em que tomam a tríplice viral. É por isso que há relatos de pais que, depois de darem a vacina, receberam diagnóstico de autismo para seus filhos. O que ocorreu, nesse caso, foi uma correlação, não causalidade.

Referências

Carolina García. Vacinas não causam autismo: o mais amplo estudo do tema sai na Dinamarca.

Robert Arp. Bad arguments: 100 of the most important fallacies in western philosophy. Oxford: Wiley-Blackwell, 2019.

Post hoc ergo propter hoc