Apelo à tradição ou argumentum ad antiquitatem | Filosofia na Escola

Apelo à tradição ou argumentum ad antiquitatem

O uso prolongado é considerado como razão suficiente para a defesa de uma ideia.
William Godoy
Argumentum ad antiquitatem ou apelo à tradição

A falácia de apelo à tradição ocorre quando o fato de algo ser antigo é usado como justificativa para a aceitação de uma ideia. O nome latino dessa falácia é argumentum ad antiquitatem. Algumas pessoas usam essa falácia ao afirmarem que algo “sempre foi assim” e, portanto, não deve ser mudado.

O pressuposto por trás desse tipo de raciocínio é o fato de algo ser antigo faz com que tenha sido usado mais vezes, de modo que comprovou sua qualidade.

As pessoas têm uma forte tendência para o conservadorismo; isto é, as pessoas tendem a preservar práticas e hábitos que parecem funcionar, em vez de substituí-las por novas ideias. Às vezes isso pode ser devido à preguiça, e às vezes pode ser simplesmente uma questão de eficiência. Em geral, porém, é provavelmente um produto do sucesso evolucionário porque os hábitos que permitiram a sobrevivência no passado não serão abandonados com demasiada rapidez ou facilidade no presente, pois de alguma forma demonstraram seu valor.

Continuar usando uma prática que funciona não é um problema; insistir em um certo modo de fazer as coisas simplesmente porque é tradicional ou antigo pode ser um problema e, quando usado em um argumento, é uma falácia.

Exemplos de apelo à tradição

Um uso comum de uma falácia do Apelo à tradição é ao tentar justificar algo que não pode ser defendido em méritos reais, como, por exemplo, a discriminação ou fanatismo.

É uma prática padrão pagar mais aos homens do que às mulheres, por isso continuaremos cumprindo os mesmos padrões que essa empresa sempre seguiu.

A rinha de galos é um esporte que existe há centenas, senão milhares de anos. Nossos ancestrais gostaram e se tornou parte de nossa herança.

Embora seja verdade que as práticas em questão existem há muito tempo, isso por si só não é uma razão suficiente para lhes darmos continuidade. Afinal de contas, nem tudo que é antigo deve automaticamente ser preservado. Muitas vezes, as circunstâncias que deram origem a essas ideias deixaram de existir, de forma que elas perderam o sentido.

Ninguém defenderia seriamente o uso de cavalos ao invés de automóveis como meio de transporte, embora durante séculos eles tenham sido usados para isso. Ou seja, se apegar completamente à tradição nem sempre é uma forma inteligente de proceder.

Existem muitas pessoas por aí que estão com a impressão equivocada de que a idade de um item, e somente isso, é indicativa de seu valor e utilidade. Tal atitude não é totalmente incorreta. Assim como é verdade que um novo produto pode oferecer novos benefícios, também é verdade que algo mais antigo pode ter valor, porque funcionou por um longo tempo.

Entretanto, não é verdade que podemos supor, sem mais questionamentos, que um objeto ou prática antigos é valioso simplesmente porque é antigo. Talvez tenha sido muito usado porque ninguém jamais conheceu ou tentou algo melhor. Talvez novos e melhores substitutos estejam ausentes, porque as pessoas aceitaram um falacioso apelo à tradição. Se não houver argumentos válidos em defesa de alguma prática tradicional, apenas um apelo à tradição, então estamos diante de uma falácia.

Apelo à tradição e religião

Também é fácil encontrar apelos fraudulentos à tradição no contexto da religião. Na verdade, provavelmente seria difícil encontrar uma religião que não usasse essa falácia pelo menos em parte do tempo, porque é raro encontrar uma religião que não se baseie fortemente na tradição como parte de como ela aplica várias doutrinas.

O Papa Paulo VI escreveu em 1976 sobre porque as mulheres não poderiam se tornar sacerdotes:

[A Igreja Católica] sustenta que não é admissível ordenar mulheres ao sacerdócio por razões muito fundamentais. Essas razões incluem: o exemplo registrado nas Sagradas Escrituras de Cristo, escolhendo seus Apóstolos somente dentre os homens; a prática constante da Igreja, que imitou a Cristo na escolha apenas dos homens; e sua autoridade de ensino viva que consistentemente sustentou que a exclusão de mulheres do sacerdócio está de acordo com o plano de Deus para sua Igreja.

Três argumentos são apresentados pelo papa Paulo VI em defesa de manter as mulheres fora do sacerdócio. O primeiro apela para a Bíblia e não é uma falácia do apelo à tradição. O segundo e o terceiro são falácias tão claras que poderiam ser citados em livros didáticos como exemplos: devemos continuar fazendo isso porque é como a igreja tem feito desde sempre e porque a autoridade da igreja decretou no passado.

De maneira mais formal, o argumento é o seguinte:

Premissa 1: A prática constante da Igreja tem sido escolher apenas homens como sacerdotes.

Premissa 2: A autoridade de ensino da Igreja sempre afirmou que as mulheres deveriam ser excluídas do sacerdócio.

Conclusão: Portanto, não é admissível ordenar mulheres ao sacerdócio.

O argumento pode não usar a palavra “tradição”, mas o uso de “prática constante” e “consistentemente” cria a mesma falácia.