Argumento ad nauseam ou ad infinitum

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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
janeiro 2020 - 3 min de leitura

O argumento ad nauseam (até provocar náusea, em português) ou ad infinitum é um tipo de argumento que tenta convencer uma audiência através da repetição.

Repetir a mesma ideia milhares de vezes fará com que as pessoas acreditem nela mesmo se for falsa? A julgar pelas estratégias de publicidade e propaganda, sim. Pense nos anúncios de produtos. Enquanto vemos a novela ou o telejornal, somos bombardeados com o mesmo anúncio dezenas de vezes. Em muitos casos, eles são embalados por jingles pegajosos, que permanecem reprisando por dias em nossas memórias. Além de mensagens aceitáveis para o público, um dos princípios por trás da propaganda é a repetição.

Hitler conhecia e recomendava esse princípio para convencer as massas. Seu ministro de propaganda, Joseph Goebbels, afirmava que “se você repete uma mentira com frequência o suficiente, as pessoas e até mesmo você irá acreditar nela.” Seguindo essa orientação, o Nazismo uso a repetição como estratégia retórica e teve grande sucesso. Poucas ideologias na história conseguiram produzir consenso em torno de ideias inaceitáveis, como a segregação e o extermínio racial.

Um exemplo da eficácia da repetição pode ser encontrado em uma das teorias da conspiração mais famosas do início do século XX, Os protocolos dos sábios de Sião. Supostamente, esse livro era um manual produzido por judeus como parte de sua estratégia para dominar o mundo. Milhões de cópias foram vendidas na década de 1920, para desmascarar o plano maligno. Inclusive Henry Ford, o fabricante de automóveis, se encarregou de produzir e distribuir meio milhão de exemplares em 1925. Apesar da ampla circulação, o livro não foi criado por judeus nem tinha a intenção de ser um manual para dominar o mundo. Estudiosos descobriram que o texto era plágio de uma sátira chamada Diálogo no inferno entre Maquiavel e Montesquieu, de Maurice Joly, publicado em 1864. Os Protocolos não eram textos secretos judeus, mas cópias de falas de Maquiavel, filósofo italiano do século XV, tal como pensadas por Joly.

Hoje, num contexto em que ideias circulam através de redes sociais, a repetição tem um poder ainda maior. Por exemplo: o número de crianças vacinadas está caindo no Brasil, pois muitos pais acreditam em informações falsas que conhecem através de grupos de Whatsapp, Facebook e outros canais de divulgação de conteúdo. Tais informações atribuem às vacinas resultados infundados, como efeitos colaterais ou falta de eficácia. O resultado é paradoxal: capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, cuja população tem maior renda e acesso à informação, têm menor taxa de vacinação do que cidades do interior, onde tanto a renda quanto o acesso à informação é menor.

Portanto, ouvir ad nauseam a mesma ideia pode nos levar a pensar que ela é verdadeira. Ou pelo menos é isso que acontece com muitas pessoas. No entanto, não é difícil se ver livre do efeito persuasivo da repetição. Basta fazer uma pergunta simples: existem evidências sólidas a favor da ideia que está sendo repetida ou apenas fatos anedóticos e teorias conspiratórias? Ninguém que fizesse e investigasse com seriedade essa questão se deixaria levar pelas notícias falsas sobre vacinas ou histórias como a dos protocolos dos sábios de Sião.

Referências

Johnson, David Kyle. Mistaking the Relevance of Proximate Causation. In Bad Arguments: 100 of the Most Important Fallacies in Western Philosophy. Glasgow: Wiley Blackwell, 2019, pp. 181-184.

Stanly, Jason. Como o fascismo funciona: a política do “nós” e “eles”. Porto Alegre: L&PM, 2019.

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