Mistério, portanto mágica

Mistério, portanto mágica

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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
dezembro 31, 2019 - 4 min leitura

Imagine que está assistindo um show de mágica. Você olha para o palco e vê um mágico movendo suas mãos como asas de pássaro e lentamente seus pés saem do chão. Parece voar.

Para você e toda a plateia, é um mistério como o mágico pode desafiar a lei da gravidade. Ainda assim, não concluem se tratar realmente de mágica. O provável é que um truque esteja sendo usado para desviar sua atenção e criar a ilusão de mágica. Apenas crianças e pessoas muito ingênuas pensam que os mágicos têm superpoderes.

No entanto, também estamos sujeitos a pensar que existe mágica por trás de acontecimentos que não entendemos. Na verdade, fazer isso parece bem comum entre seres humanos. Se não entendemos como uma pessoa foi curada de seu câncer, concluímos que foi um milagre. Se não encontramos uma explicação para a origem da vida na Terra, concluímos que foi criação de Deus. Se não compreendemos por que ouvimos certos ruídos, concluímos que foi um fantasma. Em todos esses casos, o mistério é razão suficiente para concluirmos que alguma entidade sobrenatural é a explicação.

Em debates sobre Deus, esse erro de raciocínio é muito frequente. Mesmo professores universitários não estão livres dele. Um exemplo é o argumento da “complexidade irredutível“. Alguns defensores da existência de Deus argumentam que coisas como o flagelo da bactéria Escherichia coli, a coagulação do sangue e os cílios não podem ser explicados atualmente pela teoria da seleção natural de Darwin. Motivo: são muito complexos para terem se originado de mutações aleatórias e selecionados através da sobrevivência do mais apto. Disso concluem que um ser inteligente deve estar por trás dessa “complexidade irredutível”.

O que há de errado com esse argumento? Primeiro: o mesmo que pensar que um truque é mágica porque não sabemos como ele funciona. Segundo: prova mais do que desejamos.

No passado, antes de inventarmos a meteorologia, não entendíamos como o clima funcionava. Quais forças naturais faziam com que houvesse chuva ou sol? Seca ou enchentes? Na falta de explicação, atribuíamos à vontade dos deuses. Através do clima, nos recompensavam ou puniam por nosso comportamento. Fazendo isso, agíamos como crianças em um show de mágica: convertíamos nossa ignorância em força sobrenatural.

Um argumento que justifica sua conclusão através da ignorância prova qualquer coisa. Os defensores da complexidade irredutível afirmam que um Deus inteligente projetou certas características dos seres vivos. Qual deus? Os deuses gregos, africanos, chineses, japoneses, nórdicos? Talvez a complexidade seja tanta que os deuses tiveram que fazer o trabalho em grupo. Só um não daria conta. Como pode ver, esse tipo de argumento prova a existência de qualquer coisa, geralmente nosso deus preferido.

Mistério é outro nome para nossa ignorância. Misterioso é aquilo que não entendemos com funciona, como a mágica. Raciocínios como o “mistério, portanto mágica” são por isso falácias de apelo à ignorância. A única premissa oferecida nesse tipo de argumento é o fato de ignoramos como algo funciona. Porém, nossa ignorância não contribui em nada para mostrar que uma ideia é verdadeira. A única conclusão lógica que pode ser tirada da ignorância é essa: não sabemos do que se trata.

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