Generalização apressada | Filosofia na Escola

Generalização apressada

Uma generalização apressada é uma falácia ocorre quando uma conclusão sobre todo um grupo de indivíduos é tirada com base em um pequeno número de indivíduos desse grupo.

Imagine que uma pessoa diz o seguinte:

Tenho certeza que o candidato a presidente da república do PF, Partido das Falácias, vai ter a maioria dos votos. Fiz uma pesquisa com as pessoas que conheço e praticamente todas disseram que irão votar nele.

No exemplo, uma conclusão geral (“vai ter a maioria dos votos”) é tirada a partir de alguns poucos exemplos (“pessoas que conheço”). É precipitado chegar a essa conclusão a partir de poucos exemplos. Embora o grupo de pessoas entrevistado apoie o PF, essa não é necessariamente a opinião da maioria das pessoas do país. Portanto, ocorreu no argumento acima uma generalização apressada ou, como também é conhecida, de estatística insuficiente.

Exemplos de generalização apressada

No diálogo abaixo a generalização apressada é usada em mais de uma ocasião.

Mateus –  Você sabe, aquelas feministas odeiam todos os homens.

Pedro – Sério?

Mateus – Sim, eu estava na minha aula de filosofia no outro dia em que Raquel fez uma apresentação.

Pedro –  O que Raquel disse?

Mateus –  Você sabe que ela é a única da turma que faz parte desse grupo feminista, o Centro da Mulher. Ela disse que os homens são todos os porcos sexistas. Eu perguntei por que ela acreditava nisso e ela disse que seus últimos namorados eram reais porcos sexistas….

Pedro – Isso não soa como um bom motivo para acreditar que todos nós somos porcos.

Mateus –  Isso foi o que eu disse.

Pedro –  O que ela disse?

Mateus –  Ela disse que tinha visto o suficiente de homens para saber que somos todos uns idiotas. Ela, obviamente, odeia todos os homens.

Pedro –  Então você acha que todas as feministas são como ela?

Mateus –  Tenho certeza que todos elas odeiam os homens.

Então, conseguiu identificar em quais falas ocorre uma generalização apressada?

Mateus usa um argumento falacioso ao afirmar que “as feministas odeiam os homens” com base no exemplo de sua colega Raquel. Ele não deveria ter dito isso com base em apenas um exemplo.

A Raquel, por sua vez, comete o mesmo erro ao dizer que “todos os homens são uns porcos sexistas” com base apenas nos exemplos de seus últimos namorados. Novamente, são poucos exemplos para sustentar uma generalização dessa natureza.

Um terceiro exemplo podemos tirar de um debate atual. Há uma discussão no Brasil sobre doutrinação política nas escolas motivada principalmente pelo projeto de lei Escola sem Partido.

Analisando a discussão em torno da proposta da Escola Sem Partido, um dossiê produzido pela revista Nova Escola  aponta o seguinte

“O projeto [Escola sem Partido] se baseia em relatos esparsos e em uma pesquisa de 2008 encomendada pela revista Veja ao Instituto CNT/Sensus. A reportagem não detalha a metodologia do levantamento ou a margem de erro. Apenas diz que são 3 mil entrevistados. Na sondagem, estudantes mencionam citações predominantemente favoráveis em sala a figuras como Lênin, Che Guevara e Hugo Chávez.”

O texto conclui essa análise da seguinte forma

“Restam, ainda, os relatos pessoais de quem presenciou alguma doutrinação. Embora o Escola Sem Partido diga receber numerosas denúncias, o site do movimento registra somente 33. O Brasil possui mais de 45 milhões de estudantes. É preciso ter dados mais sólidos para separar casos isolados de tendências e, também, para ter uma visão mais clara sobre se, onde e em quais situações o problema acontece.”

A análise apresentada no texto mostra que dizer que a escola brasileira promove doutrinação política é uma conclusão fraca, já que os fatos que dão suporte a essa conclusão são poucos. Por isso, quem defende essa conclusão, com base nos dados disponíveis atualmente, está cometendo uma generalização apressada. É importante notar que a análise não defende a tese contrária, de que a escola brasileira não promove doutrinação. Defende apenas que não há dados suficientes para justificar a alegação de que isso ocorre.

Referências e leitura adicional

Para conhecer mais, veja nossa lista de falácias com dezenas de textos didáticos abordando esse tema. Para uma análise mais aprofunda, sugerimos a leitura de Lógica Informal, um livro de Douglas Walton. Esse é o livro mais abrangente em português sobre o assunto.

Douglas Walton. Lógica Informal: manual de argumentação crítica. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

Ratier, Rodrigo. 14 perguntas e respostas sobre o Escola Sem Partido. Disponível em https://novaescola.org.br/conteudo/383/14-perguntas-e-respostas-sobre-o-escola-sem-partido

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Tudo que publicamos sobre:

Relacionado

John Locke

John Locke é um filósofo inglês, pai do liberalismo político, um dos principais representantes do empirismo e criador de conceitos como tábula rasa e direitos humanos.

Descartes

Descartes é considerado o pai da filosofia moderna e as suas concepções sobre o conhecimento, método, ciência e a mente humana foram e ainda são muito influentes.

Filosofia da ciência

A filosofia da ciência estuda o que é a ciência, o que diferencia esta de outras formas de saber, como a religião, e o método que usa para produzir conhecimento.