Reductio ad Hitlerum

20 de dezembro de 2019 - 6 min leitura

Reductio ad Hitlerum ocorre quando uma ideia é rejeitada porque no passado foi adotada por Adolf Hitler. Às vezes isso é uma falácia, mas nem sempre.

Hitler é um dos líderes mais perversos da história. Responsável pela morte de mais de 10 milhões de pessoas entre judeus, ciganos, comunistas, homossexuais e deficientes, seu nome se tornou sinônimo de “mal”. Assim, não é difícil entender porque a associação com ele ou o nazismo passaram a ser uma estratégia de crítica.

Deseja convencer um amigo que determinada afirmação é incorreta? Mostre que Hitler concordava com ela. Através desse reductio ad Hitlerum, colocará em dúvida a credibilidade da afirmação, porque ninguém deseja pensar como esse ditador.

Os exemplos de ad Hitlerum são abundantes nos debates, sobretudo políticos. Isso é tão frequente que, a título de sátira, Mike Godwin, um advogado norte-americano, criou a Lei de Godwin:

“À medida que uma discussão online se alonga, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou os nazistas tende a 100%.”

Ad Hitlerum na versão culpa por associação

Considere o diálogo abaixo:

A: Você está sabendo da nova política de transporte implementada pelo governo?

B: Sim, mas não tenho opinião sobre.

A: Ela certamente é péssima.

B: Por quê?

A: Porque Hitler implementou essa mesma política quando governou a Alemanha.

O exemplo de argumento acima é um reductio ad Hitlerum. A política de transportes foi criticada por estar associada à Hitler. Suponha que a política em questão seja a construção de trilhos para trens de carga e que Hitler fez o mesmo enquanto governava.

O que dizer do argumento? O fato de Hitler ter feito o mesmo nesse caso é uma informação irrelevante para avaliar se a política é boa ou não. Sua maldade não o torna uma pessoa com ideias falsas em qualquer setor. Sua política de transporte pode ter sido eficiente, mesmo ele sendo uma pessoa má.

Embora tenha estrutura semelhante, o exemplo abaixo não pode ser descartado facilmente como falacioso:

A: Você está sabendo da nova política para minorias raciais implementada pelo governo?

B: Sim, mas não tenho opinião sobre.

A: Ela certamente é péssima.

B: Por quê?

A: Porque Hitler implementou essa mesma política quando governou a Alemanha.

A política de Hitler para minorias raciais era chamada de solução final: a morte de judeus e outros grupos considerados indesejáveis. Nesse caso, a associação com Hitler não é uma falácia. Ao contrário, é uma boa razão para rejeitar a política implementada pelo governo.

Os dois argumentos apresentados acima são um tipo de ad hominem. Esse tipo de argumento tenta mostrar que uma ideia é falsa porque a pessoa que a defende tem mau-caráter um não é confiável.

Para evitar cometer essa falácia lembre que nem tudo que Hitler fez é necessariamente falso ou errado. É difícil pensar que Hitler teve ideias corretas. É quase como dizer que o diabo não é sempre malvado. Mas de um ponto de vista lógico isso é possível.

Ad Hitlerum na versão ladeira escorregadia

Argumentos ad Hitlerum podem assumir outras formas além do mais típico ad hominem. Algumas versões adotam a estrutura de uma falácia chamada ladeira escorregadia.

Esse é um argumento com a seguinte estrutura:

  1. X não parece ser tão ruim.
  2. Porém, se X for adotado, irá gerar uma série de efeitos.
  3. E um desses efeito é totalmente indesejável.

Por vezes esse esquema é usado para mostrar que a política X levará, através de uma série de causas e efeitos prováveis, à políticas de extermínio de grupos da população como fizeram os nazistas.

Considere um exemplo desse argumento:

Discursos que dividem a população em grupos de bons e maus, excluem certos grupos e limita a capacidade da sociedade sentir empatia por seu sofrimento. Isso foi feito pelos nazistas ao dividirem as pessoas em raça superior e inferior. O resultado foi o extermínio de grupos considerados inferiores. O discurso que divide os brasileiros entre “cidadãos de bem” e “bandidos” não deveria ser promovido, porque pode contribuir para políticas de extermínio.

Esse é um caso de ad Hitlerum mais complexo que os exemplos acima. Esse argumento usa vários elementos para justificar a conclusão.

Primeiro: estabelece uma relação causal entre dois eventos, dividir a sociedade entre bons e maus, inferiores e superiores, torna mais provável políticas de extermínio. Segundo: estabelece uma analogia entre o racismo nazista e a divisão subentendida no conceito de “cidadãos de bem”. Terceiro: conclui que esse discurso, como o discurso nazista, torna mais provável políticas de extermínio.

O que dizer desse exemplo de ad Hitlerum? É uma falácia ou argumento válido? Embora seja possível fazer questionamentos razoáveis sobre a verdade das premissas do argumento, ele não pode ser considerado uma falácia. Suas premissas são relevantes para a conclusão que defende e contribuem para justificá-la. Além disso, as várias políticas de extermínio, ou mesmo escravidão, são fatos históricos que oferecem apoio expressivo para as premissas.


Reductio ad Hitlerum é um argumento complexo, que pode assumir diferentes formas. É necessário cuidado ao avaliar sua validade, pois é tão incorreto aceitar sem crítica suas versões falaciosas quanto considerar toda referência à Hitler ou o nazismo na argumentação uma falácia.

Referências

Harris, Adam J. L. Because Hitler did it! Quantitative tests of Bayesian argumentation using ad hominem. Thinking & Reasoning, 2012, 18 (3), p. 311–343.

Holocausto. In: Wikipédia: a enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Holocausto. Acesso em: 20 dez 2019.

Stanly, Jason. Como o fascismo funciona: a política do “nós” e “eles”. Porto Alegre: L&PM, 2019.

1 Comment

  1. Marcos Freire disse:

    “O discurso que divide os brasileiros entre “cidadãos de bem” e “bandidos” não deveria ser promovido, porque pode contribuir para políticas de extermínio.”

    Este é um exemplo do que a direita faz, mas a esquerda é até pior nisso, com pessoas se considerando antifascistas e taxando de fascistas todos os opositores. Ou você é a favor do movimento LGBT ou é homofóbico, ou está de acordo com as pautas do movimento negro ou é racista, etc. Perceba como essa outra opção é sempre uma coisa ruim (aqui entra também a falácia do falso dilema), é como se dissessem “ou você está do lado do bem, que somos nós, ou está do lado do mal”. Então isso pode muito bem contribuir para políticas de extermínio dos “fascistas”.

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