Armas não matam pessoas, pessoas matam: uma falácia que ignora a causa próxima

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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
dezembro 2019 - 5 min de leitura

Toda campanha política precisa de frases de efeito e bons argumentos para ganhar apoiadores, convencê-los de que estão no caminho certo e desacreditar quem pensa diferente. Essa não é uma peculiaridade da direita ou da esquerda, é uma característica do discurso que tem a pretensão de atingir as massas.

A frase “armas não matam pessoas, pessoas matam” tem a qualidade de ser dois em um: um slogan eficaz e um argumento convincente. Duvida? Os políticos mais destacados na defesa da flexibilização da posse de armas a têm na ponta da língua. Veja, por exemplo, a fala de Onyx LorenzoniEduardo Bolsonaro e Joice Hasselmann.

Mais um indício de que o discurso ganhou o público, charges e memes repetem o tema. Basta procurar por “armas não matam pessoas, pessoas matam” nas imagens do Google que irá encontrar conteúdo como o abaixo.

De fato o argumento parece bom. Afinal, argumenta seu defensor, armas sem seres humanos não fazem nada. Ficam lá paradas sem qualquer reação. O que poderíamos dizer contra esse fato tão óbvio?

Já que se baseia em um fato, esse é bom argumento? Na verdade, não. Ao contrário, é o exemplo perfeito de falácia, aquilo que o velho Aristóteles definia como “argumento que parece bom, mas não é”.

Ignorar importância da causa próxima é uma falácia

O tipo de falácia presente no slogan “armas não matam pessoas, pessoas matam” é chamada de ignorar a causa próxima. Embora entender o que isso significa seja um pouco mais complexo que compreender frases de efeito, não é impossível. O primeiro passo é entender o que significa “causa próxima”.

Uma relação causal entre dois eventos, A e B, é mais complexa do que parece inicialmente. Pense no seguinte: o que fez (qual causa) você ler esse texto agora? Certamente sua escolha foi fundamental para isso. No entanto, há uma série de outras condições também necessárias para tomar sua decisão.

A lista é grande: smartphone ou computador; conexão com a internet; algoritimos de sugestão de conteúdo, notificação do site ou recomendação de um amigo; habilidade mediana de leitura; interesse por política ou argumentação. Com um pouco mais de imaginação é possível escrever algumas páginas sobre uma simples relação causal que o levou à leitura de um artigo. Histórias causais, portanto, são séries de eventos que envolvem uma longa lista de causas.

Para facilitar a discussão, alguns autores dão nomes para as etapas dessas séries. O início de tudo é chamado de “causa última”, as causas que ficam no meio do processo de “causas intermediárias” e “causa próxima” aquela que antecede o efeito.

O argumento “armas não matam” pressupõe que apenas a causa última, nesse caso a decisão matar, deve ser considerada a causa de um ato de violência. Causas intermediárias ou próximas, como armas, não tem nenhum papel causal nisso. No entanto, é um erro descartá-las sem mais argumento.

Experimente usar esse mesmo raciocínio em outras questões. Pense nas mortes em Hiroshima e Nagasaki em 1945. Qual foi sua causa? Qualquer explicação deve considerar não apenas sua causa última, a decisão de ordenar o ataque, mas as características da bomba atômica lançada nessa cidade e outros fatores.

No entanto, a bomba atômica não é diferente de uma arma no sentido relevante aqui. Um crítico das políticas que buscam evitar a proliferação de armas nucleares também poderia dizer “armas nucleares não matam pessoas, pessoas matam”. Poderia demonstrar seu argumento gravando um vídeo da bomba parada, inofensiva.

O erro desse tipo de argumento é ignorar que causas intermediárias influenciam os efeitos das decisões humanas. Ninguém diria que na Idade Média uma guerra poderia destruir o mundo, mas era esse o medo durante a Guerra Fria. E as armas estão por trás dessa mudança do potencial destrutivo de nossas ações.

Você pode multiplicar os exemplos. Substitua a palavra “armas” do slogan por “maconha”, “cocaína”, “crack” (nesses casos também substitua “matam” por “viciam”), “tanque de guerra”, “submarino militar” etc. e poderá defender qualquer coisa em nome da liberdade individual.

Ignorar a importância da causa próxima é um tipo de falácia de relevância. Seu erro consiste em ignorar uma das regras de um bom argumento: as premissas devem ser relevantes para mostrar que a conclusão é verdadeira ou aceitável. Dizer que “armas não matam pessoas” contribui tanto no debate sobre desarmamento quando “bombas não matam pessoas” no debate sobre redução de armas nucleares: nada.

Facilitar o acesso a armas de fogo contribui para reduzir ou aumentar a violência? Essa é a questão mais importante no debate sobre desarmamento. Estudos como os do artigo desse link contribuem para a reflexão. Slogans como “armas não matam” só distraem do que realmente importa.

Referência

Johnson, David Kyle. Mistaking the Relevance of Proximate Causation. In Bad Arguments: 100 of the Most Important Fallacies in Western Philosophy. Glasgow: Wiley Blackwell, 2019, pp. 181-184.

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