Falácias causais

falácias causais
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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
agosto 2019 - 5 min de leitura

Falácias causais ocorrem quando você supõe existir uma relação de causa e efeito entre dois fenômenos que provavelmente não existe.

Na maioria dos debates nos deparamos com o problema de saber se um fenômeno causa de fato outro.

No Brasil atualmente, por exemplo, as pessoas discutem se facilitar a posse de armas vai reduzir ou aumentar a violência.

Quando o assunto é saúde, algumas pessoas sugerem que vacinas provocam doenças, enquanto a comunidade científica afirma que isso é um mito.

Quando o tema é religião, algumas pessoas acreditam terem sido curadas por um milagre, enquanto os céticos afirmam que isso não passa de uma coincidência.

Em todos esses casos, temos um debate sobre relações de causa e efeito, e em todos eles estamos sujeitos a incorrer em falácias causais. Essa falácia é muito comum é pode ocorrer por diferentes motivos. No texto iremos apresentar três erros que levam alguém a identificar incorretamente a causa de um fenômeno.

Pos hoc

Por vezes uma relação de causa e efeito é estabelecida com base na observação de que dois eventos estão correlacionados: sempre que um acontece, o outro também acontece. Por exemplo:

Toda vez que o galo canta, o sol nasce. Portanto, devo concluir que é o cantar do galo que faz o sol nascer.

O ponto de partida do argumento é uma observação verdadeira. O galo de fato canta antes do sol nascer. Contudo, é incorreto concluir disso que a causa do nascimento do sol é o cantar do galo. Se trata apenas de uma coincidência. O cantar do galo não tem esse poder.

Pensando nesse exemplo, tal erro na argumentação pode parecer bobo e pouco frequente. De fato, provavelmente jamais alguém pensou que é o cantar do galo que nos traz horas de sol.

No entanto, pensar que uma coisa causa outra só porque ocorrem em sequência é bastante comum. Isso está por trás de um mito que vem ganhando aceitação: a ideia de que vacinas causam doenças.

Essa crença surgiu do fato de que alguns pais recebem diagnóstico de autismo para seus filhos depois de terem feito a vacina tríplice viral. Ao ver isso, concluíram que é a vacina a causa do autismo.

Esse raciocínio tem a mesma estrutura do primeiro: uma suposta relação de causa e efeito é identificada a partir da observação de correlações. E também nesse caso se trata de uma falácia causal. Todos os estudos mostram que a vacina não causa autismo.

No atual debate sobre posse de armas um erro dessa natureza também pode estar acontecendo. Algumas pessoas defendem sua ampliação argumentando que o Estatuto do Desarmamento não trouxe o resultado pretendido.

Desde que foi aprovado, os números relacionados à violência, como assassinato, roubo, etc. aumentaram. Isso supostamente mostra que menos armas legais disponíveis para a população causa um aumento no número de crimes.

Como nos outros exemplos, essa é uma conclusão tirada apenas com base numa correlação. Isso é informação insuficiente para tal conclusão. É possível que o aumento na violência observada seja provocada por outras mudanças sociais que também ocorreram no período. Também é possível que se o Estatuto do desarmamento não tivesse sido implementado a violência hoje seria ainda maior.

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Enfim, não é possível chegar a qualquer conclusão muito confiável com base em observações de correlação como essas.

Erros na identificação da causa e do efeito

Outro erro comum em argumentos causais ocorre na identificação da causa e do efeito. Por vezes pensamos que A é o efeito e B a causa, mas, na verdade, é o inverso. Também pode acontecer casos nos quais A e B são o efeito de uma terceira causa, C. Essas possibilidades também são motivo para muitos erros.

Direção errada

A falácia causal chamada de direção errada ocorre quando confundimos causa com efeito. Por vezes identificamos que existe uma relação causal entre A e B, porém não sabemos ao certo qual é a causa e qual o efeito.

Um exemplo curioso dessa falácia é o seguinte:

Os habitantes de certa ilha observaram corretamente, ao longo dos séculos, que pessoas com boa saúde têm piolhos no corpo e que pessoas doentes, não. Então, concluíram que os piolhos tornam a pessoa saudável.

A conclusão dos habitantes foi que piolhos (A) geram saúde (B). Contudo, seria mais correto terem pensado que a saúde (B) proporcionam condições favoráveis ao aparecimento dos piolhos (A). Isso porque a doença gera febre, aumenta a temperatura do corpo e os piolhos não gostam. Portanto, deveriam ter concluído que B causa A e não o contrário.

Efeito conjunto

Por vezes observamos uma relação entre A e B, mas isso não se deve a uma relação causal entre ambos. Existe um terceiro elemento, C, que é responsável por causar os dois. Essa é uma falácia chamada de efeito conjunto.

Por exemplo. Se descobriu que pessoas casadas comem menos doces do que pessoas solteiras. Ao observar isso, alguém poderia pensar que o casamento (A) causa uma diminuição no consumo de doces (B). Afinal, um acontece depois do outro.

Porém, outras pesquisas mostraram que quando comparados casados e solteiros da mesma idade, essa relação não existia. O consumo de doces era tão frequente num grupo quanto no outro. Portanto, não é o casamento que faz as pessoas gostarem menos de açúcar, mas a idade.

É um terceiro fator, a idade (C), que aumenta a chance da pessoa se casar e diminui seu consumo de doce. Por isso que os últimos geralmente ocorrem juntos.

Portanto, mais uma vez é possível ver que correlação não é indício suficiente de causalidade.

Como evitar uma falácia causal

Quando observamos uma correlação, um acontecimento acontecendo e depois o outro, temos uma tendência natural de pensar que o primeiro causou o segundo. Por vezes isso está certo. Mas também é comum cometermos erros nessas avaliações.

Para evitar isso, é necessário sempre cuidado ao tirar conclusões sobre relações causais entre eventos, lembrando que correlação não é garantia total de causalidade.

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